«Secretly Greatly» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Depois de ter surpreendido em 2010 com o intenso thriller Bedevilled [que passou pelo Fantasporto], o sul coreano Jang Cheol-soo [ que foi assistente de realização de Kim Ki-Duk em dois filmes*],decidiu assumir a adaptação ao cinema de uma Webcomic de sucesso e embarcou numa comédia de espionagem superficial que tende a cair nos maiores problemas atuais do cinema comercial local. A verdade é que apesar do cinema coreano continuar a surpreender nos mais diversos géneros, denota-se alguma plasticidade em certos trabalhos que estão demasiado preocupados em agradar em ser mega sucessos de bilheteira, perdendo assim personalidade e alguns casos a identidade. Não que isso incomode muito os produtores locais, pois se fizermos bem as contas este está a ser o maior sucesso na Coreia do Sul em 2013.

Pegando numa ferida infinitamente aberta na sociedade coreana (a separação entre o Norte e o Sul), Cheol-soo abdica de uma abordagem verdadeiramente satírica ou alegórica, preferindo através de uma lavagem tragicómica colocar alguns espiões norte-coreanos infiltrados na Coreia do Sul. No centro da ação está Won Ryu-Hwan (Kim Soo-Hyun), um jovem soldado que tem como missão infiltrar-se num bairro como o trapalhão e idiota. Para essa missão, Won tem uma verdadeira listagem de coisas a fazer, como tropeçar diariamente ou até defecar mensalmente uma vez na rua. E assim vive, esperando ansiosamente por uma verdadeira missão enquanto trabalha entediado numa pequena mercearia familiar. A ele juntam-se mais tarde Lee Hae-Rang (Park Ki-Woong) e Hae-jin, outros espiões norte-coreanos cuja missão é passarem no território por um aspirante a musico rock e um estudante. As coisas complicam-se quando inexplicavelmente, e sem nunca lhes terem atribuído um verdadeiro trabalho no território, os serviços de espionagem norte-coreanos decidem eliminar o grupo e a sua presença no local, sugerindo que os espiões executem a solução final para o qual foram treinados, ou seja, que se suicidem.

Aqui começam então os verdadeiros problemas, pois estes espiões não aceitam a decisão dos superiores e serão perseguidos – sob o olhar atento dos serviços secretos sul coreanos – pelo seu superior hierárquico, que entretanto viajou do norte para o sul para os eliminar.

Sem nunca ser uma comédia propriamente explicita ou um aprofundado tema sobre a separação das coreias, o filme orienta-se em torno das histórias pessoais e interação dos envolvidos. Como estes elementos são simples visitas a lugares comuns (ligações familiares em perigo, empatia com quem os acolheu no território, etc), a Secretly Greatly falta-lhe algo que o eleve a mais que o simples entretenimento durante as suas duas horas. Para além disso, a sua estrutura está muito formatada para o sucesso no local, havendo alguma dificuldade ao espectador não coreano em criar uma real empatia com a história, personagens e o «costumeiro» puxar à lágrima final logo após um confronto final que se estende em demasia.


Jorge Pereira

* SamaritanaPrimavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera

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