Queer Lisboa: «Boy Eating the Bird’s Food» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)
 
Depois de ter passado pela competição no Festival de Karlovy Vary, Boy Eating the Bird’s Food levou até Toronto, Roterdão e (agora) Lisboa, a austeridade, a verdadeira tragédia grega dos tempos que correm.
 
Para isso, o estreante Ektoras Lyzigos pega na obra Hunger, escrita em 1890 por Knut Hamsun, e adapta ao seu estilo a simples história de Yorgos (Yiannis Papadopoulos), um rapaz educado que vive numa Atenas atípica devido à crise e que possui no seu pássaro engaiolado a única companhia. Sem um tostão no bolso e sem um emprego, este homem passa fome, servindo-se mesmo da alpista do seu animal de estimação, daquilo que encontra nos caixotes do lixo e até do próprio esperma, numa das cenas mais impactantes e chocantes da história.
 
O pedido de ajuda que devia fazer aos familiares nunca acontece, talvez por orgulho, mas essencialmente porque também se percebe que eles não poderiam ajudar muito. Numa das cenas mais marcantes, assistimos mesmo a um «assalto» do protagonista ao frigorífico da casa de um parente, algo que se revela infrutífero pois este estava vazio (só tinha medicamentos), acabando por matar a fome com algumas colheres de açúcar que serviram como a iguaria perfeita para aquele momento. 
 
Mas este conto de fome tecnicamente impressionante tem ainda o dom de se afastar da nova vaga do cinema grego que conta de forma muitas vezes surreal os problemas inerentes à nação e aos indivíduos. Assim, e muito mais próximo do realismo de, por exemplo, Bresson, Lyzigos consegue ligar muito mais o espectador à sua história, repleta ainda de enigmáticas atitudes que criam um puzzle em torno da personagem principal, um homem em decadência e que tenta sobreviver com o seu canário (curiosamente embrulhado numa bandeira grega) num país profundamente de rastos: física e espiritualmente. E pior. Sem esperança. 

Jorge Pereira
(crítica originalmente publicada em setembro de 2012 e ajustada à estreia no Queer Lisboa)

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