Um homicídio de um xerife local leva um grupo de personagens a visitar o condenado, de modo a averiguar melhor o que se passou. Eis a grande “história” de “The Paperboy – Um Rapaz do Sul“, um grandioso filme “trash” como há muito tempo não víamos, tendo como cenário o Sul dos Estados Unidos na década de 70.
Muitos discordarão, mas a abordagem de Lee Daniels a esta época, longe da auto-referencia de outros cineastas (Tarantino, helás!), e mais próxima de ingenuidade que nos faz pensar se está mesmo consciente do que realmente pretende (como o cinema original que referencia, de facto), exibe um poder de tal modo transfixante num “tudo pode acontecer” que acaba até por superar o seu filme anterior “Precious“.
A mixórdia de temáticas volta aqui a estar presente, dos conflitos raciais à própria questão da orientação sexual, mas aqui serve em pleno a estética de exploração deste subgénero maldito (menos maldito numa fase pós-Tarantino, mas ainda assim posto de lado…).
Daniels é daqueles cineastas, que, para além de não sabermos bem o que está a fazer, consegue de algum modo convencer atores de série A a fazer cenas que escapam ao alfabeto. Aqui temos chuva dourada como cura caseira para ataques de alforrecas e masturbação em grupo como cenas icónicas que dificilmente nos sairão das retinas tão cedo. E os atores entregam-se aqui de uma forma incondicional aos requisitos: Zac Efron livra-se aqui de uma vez por todas do rótulo Disney, para o melhor e para o pior (cof); McConaughey está a ter um ano excelente, e não sendo esta a sua melhor prestação este ano, é ainda assim uns furos acima do que esperaríamos dele em qualquer outro ano; Macy Gray faz-nos querer vê-la mais no grande ecrã; John Cusack está um canastrão quase irreconhecível. E depois temos Nicole Kidman, no papel da sulista Charlotte Bless, numa performance tão comprometida, que nos remete para os tempos de “Disposta a Tudo” – sendo Charlotte Bless a faceta mais bondosa de uma Suzanne Stone Maretto. A ser nomeada ao Oscar, será das nomeações mais chocantes (tendo em conta o contexto do filme), como das mais merecidas dos últimos anos, e também uma recompensa tardia pelo seu papel de “Disposta a Tudo”.
De resto, não analisemos em demasia a nota abaixo – meramente indicativa se, tal como este espectador, você gosta de ver filmes também pelo entretenimento de os ver. Para esses, este é claramente um filme a não perder. E se há filme este ano que escapa a classificações de “bom” ou “mau”, é este.
O melhor: Nunca se levar demasiado a sério, levando até às últimas consequências esta sua matriz “trashy“. E a entrega dos atores (sobretudo Kidman).
O pior: Estar a ser criticado em demasia por ser “trashy”.
| André Gonçalves |

