“O mundo é um palco” dizia já William Shakespeare, nascido muito tempo antes de Tolstoi ter escrito “Anna Karenina“, ainda hoje a sua obra mais reconhecível, onde o parecer tem um sentido radicalmente diferente do sentir, numa sociedade artificial e repleta de hipocrisias.
Trinta e tal adaptações depois, eis que nos chega a notícia de que Joe Wright (“Orgulho e Preconceito”, “Expiação”) está a dirigir uma nova versão do clássico, e para não variar, volta a cruzar-se com Keira Knightley, que vestirá assim o papel titular, no seu misto de Chanel com fragilidade, que tanto me agrada pessoalmente. Seria mais uma versão “convencional”, com seis semanas de rodagem na Rússia, mas a certa altura, o realizador apercebeu-se do erro que seria dar ao mundo uma Anna Karenina igual às outras, com uma atriz que já faz filmes destes há uns valentes anos. E bem, não mudando a atriz (até porque convenha-se, o que faz Knightley nestas obras, faz muito bem), decide mudar o conceito formal, e filmar grande parte da ação… num teatro.
A ideia não é nova, e de facto já tivemos visões mais extremas (“Dogville”?), mas o facto de assentar que nem uma luva a esta narrativa torna deste logo esta enésima “Anna Karenina” fácil de simpatizar. Claro que a certa altura o espectador sente que Joe Wright se enamorou demasiado da ideia, mas não tenhamos dúvidas: “Anna Karenina” é o maior e melhor “bate-pé” num filme de época desde “Marie Antoinette” de Sofia Coppola, que consegue ser em simultâneo: a) um anúncio da Chanel estendido; b) um romance apropriadamente desvairado e hermético sobre uma protagonista levada à loucura pela sociedade fechada; c) uma adaptação que tenta ainda assim juntar todas as pontas. É algo impressionante de se ver, e Wright, mesmo que esteja aqui a uma sombra de emoção de um “Expiação“, está formalmente no seu pico de criatividade e loucura.
O Melhor: O golpe de génio, conceptualmente falando.
O Pior: Wright pode-se enamorar de vez em quando pelo seu golpe em demasia, mas o resultado nunca deixa de ser fascinante, para o melhor e para o menos bom.
| André Gonçalves |

