Poucos são os filmes sobre a questão da verdadeira guerra que ao longo de décadas tem assolado o território da Palestina. E digo poucos, porque se analisarmos bem ainda não houve uma obra que tratasse desta questão em toda a sua plenitude. Talvez até nunca venha existir um unico filme, até porque os elementos que constituem esta obra dariam para um verdadeiro franchise, ou então uma série de TV de diversas temporadas.
De qualquer maneira, a Segunda Guerra Mundial também tem muito que se lhe diga, mas desse confronto e das suas vítimas existem centenas, para não dizer milhares de obras. Por alguma estranha razão (que não é), o Médio Oriente continua longe dos estúdios. E provavelmente não porque não haja cineastas interessados, mas sim porque certamente há sérios problemas de financiamento e medo por parte da distribuição.
«Miral» é um filme sobre a causa palestina e apesar de ser um esforçado trabalho de Julian Schnabel (“Basquiat” e “Scaphandre et le papillon”), acaba por ser muito pouco arrojado, muito pouco incisivo e muito pouco conseguido. Na obra seguimos diversos eventos da história da Palestina centrando a nossa acção em quatro mulheres. Tudo isto é baseado parcialmente no livro de Rula Jebreal, sobre a vida de Hind Husseini.
A caminho do seu trabalho, Hind, uma jovem palestina, encontra um grupo de crianças, entre os 2 e os 12 anos, dobradas sobre si a tremer, vítimas da guerra que as deixam órfãs. Ela acolhe-as em sua casa e prepara-lhes uma refeição… Assim surge o instituto Dar Al Tifel, um centro de acolhimento para crianças da Palestina.
Noutro local e mais tarde, Nadia, uma jovem com sangue na guelra, divide a sua cela com Fatima, uma antiga enfermeira detida por ter colocado uma bomba num cinema. Entretanto, Nadia e Jafal conhecem-se e decidem casar. Dessa união nasce Miral. Quando Nadia morre, Jafal leva Miral para ao instituto Dar Al Tifel. Aos 17 anos, Miral (Freida Pinto) vê-se numa altura de escolhas, dividida entre a defesa da causa do seu povo e a ideia, induzida por Hind, de que a educação é a única solução. É através da história de Hind, Nadia, Fátima e Miral que Schnabel reflectirá sobre a história de um povo em busca de reconhecimento, dignidade e autonomia, mas tudo seguindo uma linha muito forrnal.
Ao contrário do filme «Incendies», facilmente o melhor filme dos últimos 6 anos, Schnabel não sabe bem conjugar os factos inequívocos da guerra entre Israel e os Palestinos com os dramas individuais das personagens. Há momentos mesmo em que se explicam algumas coisas sobre a história da nação como se tivéssemos três anos, ou não soubéssemos os factos. O problema da nossa sociedade não é desconhecer os factos, mas ter uma noção deles moldada consoante a moralidade imposta por quem conta a história. É como perceber que hoje em dia os terroristas são aqueles rebeldes com quem não concordamos. Quando até apoiamos, como foi no caso de Timor, eles chama-se guerrilheiros.
O mundo de hoje modela-se por conceitos que os Media impõem e não há nada que se pode fazer contra a máquina oleada que solta as informações no ocidente. O Hamas é terrorista. Os que lutam na Libia contra o poder são rebeldes. Ponto final, não há volta a dar… Por isso, e para aqueles que conhecem um pouco mais da história da região e têm uma opinião mais que formada sobre a questão da Palestina, «Miral» torna-se um filme inconsequente, com excepção na descoberta do trabalho executado por Hind Husseini. Se por acaso nunca ligaram à História da região, então «Miral» pode ser um bom começo, mas não o melhor.
Destaque final para Hiam Abbass (“Paradise Now”, “The Visitor”, “Lemon Tree”), uma actriz fenomenal que se destaca numa obra que parece querer centrar as luzes em Freida Pinto, que apesar de cumprir não deixa qualquer marca pessoal na sua personagem.

Jorge Pereira

