
Em conjunto com Laura Paolucci e Francesco Piccolo (“Il Caimano”), Nanni Moretti adaptou o livro de Sandro Veronesi, preferindo desta vez abdicar da responsabilidade da realização para se poder dedicar, despreocupadamente, a uma personagem surpreendentemente adequada à persona a que Moretti nos tem habituado. Na cadeira de realizador, Antonello Grimaldi tem apenas a falha de um desnecessário flashback a Veneza.
“Caos Calmo” define-se no próprio título: sob uma capa de tranquilidade aborda as mais borbulhantes questões associadas à perda e à dor. Como deve um homem reagir à morte da mulher? O que deve fazer para ajudar a sua filha a superar essa morte? O que é “normal”? As emoções que inundam “Caos Calmo” são tão subtis como avassaladoras. Os poderosos laços de afecto que Pietro estabelece com os habituais frequentadores da praça (o dono do café, uma rapariga que passeia o cão, um rapaz com síndroma de Down) poderão ser improváveis, mas não impossíveis. E é dessa imprevisibilidade e fragilidade humana de que se fala aqui.
São lançadas algumas questões sobre o passado da sua mulher, mas Pietro decide manter-se na ignorância e guardar a sua memória (parece-me a mim que, mais por respeito à filha do que qualquer outra coisa). À falta de conseguir encontrar uma ordem que o satisfaça, Pietro ordena itens em listas num acto de abstracção. Mas o que Pietro faz não é tanto ausentar-se do mundo, ele apenas escolhe a parte do mundo que mais lhe importa. Todos os que se aproximam de Pietro procuram sinais da dor, mas todos eles respeitam a sua forma de lidar com o esse caos.
Em “Caos Calmo” há um cuidado extremo com a correcta dimensão das personagens, dando densidade até às mais fugazes aparições. E se Moretti é, mais uma vez, de uma inegável competência, nem Valeria Golino nem Alessandro Gassman lhe ficam atrás: ela prestes a explodir em cada cena, ele de uma ternura quase incompatível com tanta testosterona.
Pietro volta a encontrar a mulher que o vimos salvar no início do filme, Eleonora (Isabella Ferrari). É entre eles que se desenrola a fogosa cena de sexo que tanto chocou o Vaticano. Se, por um lado, se pode questionar a dimensão da cena (cuja naturalidade é totalmente desarmante), por outro, é ela que marca o momento de libertação de Pietro, a passagem da dor à aceitação. Esteticamente, este acto sexual é idêntico ao acto do salvamento, com a diferença de que agora é Pietro que é salvo.
Não deveria ser precisa uma calamidade para nos fazer parar e olhar o mundo desde a perspectiva certa. As coisas mais simples são, não raras vezes, as mais importantes. Às vezes um abraço diz tudo.
7/10
Rita Almeida

