
Contos de fada para assassinos
Nunca teríamos suspeitado que as conversas entre dois assassinos profissionais irlandeses poderiam ser ao mesmo tempo tão divertidas e tocantes.
O cenário, claro, é Bruges, uma pequena pérola de arquitectura gótica medieval, carregada de simbologia. E que encantos nos reserva esta cidade.
Ken (Brendan Gleeson) e Ray (Colin Farell) esperam por um telefonema do seu patrão Harry (Ralph Phienes). Forçados ao turismo e à contemplação, dois gangsters estão desocupados mas têm muitas questões por resolver.
O universo onírico dos quadros do pintor flamenco Hieronymus Bosh é um dos ex-libris de Bruges e até os personagens de Bosh ganham vida própria quando Ken e Ray encontram uma equipa de filmagens que está a gravar na cidade, o que vem adensar a atmosfera de contos de fada.
Para Ray, estar em Bruges é o mesmo que estar no inferno, até que conhece Chloe, (Clemence Poesy). Mas o encontro com os actores não abre apenas portas ao romance, vai também ser o mote para uma série de piadas cruéis envolvendo um anão.
Em Bruges é um filme que nos desarma pela naturalidade e intimidade de alguns diálogos. Martin McDonaugh consegue encontrar um tom que nunca é pretensioso mas que é muito inteligente. Os opostos estão sempre presentes, paraíso e inferno, honra entre criminosos, comédia e instintos suicidas, problemas morais de quem escolheu não respeitar as leis humanas, vida e morte, encontram aqui um equilíbrio ao mesmo tempo trágico e divertido.
Os desempenhos da dupla Brendan Gleeson/Colin Farell são cativantes. A dinâmica entre o assassino experiente e tranquilo com a vida e o jovem novato e insatisfeito, cheio de dúvidas existenciais e com um enorme peso na consciência, está no ponto certo. Mas o filme não se limita a este par e quando Ralph Fiennes entra em cena as coisas tornam-se ainda mais interessantes.
“In Bruges” é a primeira longa metragem do irlandês Martin MacDonaugh que em 2004 ganhou um Oscar para melhor curta com “Six Shooter”. A premiada curta-metragem era também uma comédia negra, sobre uma viagem de comboio em que um homem de idade que acaba de perder a mulher conhece um jovem aparentemente psicótico.
Em Bruges é o tipo de filme europeu que é capaz de rir de si mesmo, é despretensioso, divertido e muito bem escrito.

