
Dispara primeiro. Confirma depois.
A tagline de “In Bruges” revela à partida a mistura de conteúdo neste candidato a filme de culto. Dois assassinos profissionais Ray (Colin Farrel) e Ken (Brendan Gleeson) são enviados por Harry Waters (Ralph Fiennes) a Bruges, velha cidade belga de arquitectura gótica e lembranças medievais. Ambos esperam novas ordens de Harry. Ray atormentado por um erro do passado e Ken, com uma postura mais paternalista, divagam pelas ruas da cidade como turistas, com encontros e desencontros com os locais e com um anão que se encontra a rodar um filme. Quando finalmente surge o telefonema de Harry, os três homens vêem-se envolvidos num conflito entre a vida e a morte de proporções tão cómicas quanto mórbidas.
O argumento é sem dúvida a grande pérola deste filme, consistente e brilhantemente escrito por Martin McDonagh, que se estreia também como realizador da primeira longa-metragem. As personagens enchem o ecrã, e são representações soberbas; o já veterano Brendan Gleeson que não espanta no seu papel, o cómico e ao mesmo tempo perturbado Colin Farrel e um Ralph Fiennes como ainda o não tinha visto, nem no seu papel como vilão Voldemort na saga “Harry Potter”.
Farrell revela de novo um extraordinário talento, depois de “Cassandra’s Dream” onde também já provara conseguir aguentar uma personagem com características bastante introspectivas. O sotaque irlandês soma pontos em conjunto com os sublimes diálogos dando-lhe um toque único.
Brendan Gleeson encontra na sua personagem alguém cansado do trabalho que tem e que, ao contrário de Ray, não odeia a cidade. De facto, até se sente de certo modo fascinado pelas suas ruas e canais. As reviravoltas desta obra cinematográfica ajudam a reconhecê-lo igualmente como um actor magnífico.
O filme só tem a ganhar com a entrada em cena de Ralph Fiennes, um chefe quase tresloucado mas fiel aos seus princípios, que encontra em Bruges uma cidade que lhe lembra um conto de fadas. Esse conto de fadas que mais adiante se irá transformar numa mórbida realidade de novo de modo brilhante.
Nem os actores secundários perdem carisma; Clémence Poésy (que talvez consigam reconhecer depois de um papel em “Harry Potter and the Goblet of Fire”), Thekla Reuten e Jordan Prentice, nomes praticamente desconhecidos do público, são as escolhas que preenchem o cenário de forma quase perfeita.
“In Bruges” é uma mistura bastante eficaz de humor negro e thriller. É bastante difícil escrever sobre ele sem revelar os trunfos que fortalecem a história e que cabe a cada espectador descobrir. Um filme a não perder!
9/10
Carlos Lopes

