Como sempre, recheada de grandes momentos de acção, a nova missão de James Bond chega às salas portuguesas para deliciar os seguidores da Odisseia deste Ulisses dos tempos modernos. Um dos heróis de maior referência na História do cinema, o agente britânico 007, de novo interpretado por Daniel Craig, leva-nos numa viagem por diversos lugares do planeta, Itália, Bolívia, Áustria, entre outros, desta feita em busca dos responsáveis da morte da sua grande paixão, Vesper, assassinada no anterior episódio, Casino Royale.
Cortando com a linha tradicionalmente seguida pela saga, o que aliás se verificara já no último capítulo da série, esta nova aventura traz-nos um Bond com muito menos gadgets e muito mais físico do que inteligente. Na fórmula agora adoptada, o agente já não faz tanto uso do seu irresistível charme para chegar onde quer, nem acusa tanto a tendência marcadamente mulherenga que em tempos foi seu apanágio. Ainda que, sem dúvida, politicamente mais correcta, a actual postura aniquila alguma da graça de que gozavam as interpretações de Sean Connery, Roger Moore e até mesmo Pierce Brosnan.
Realizada por Marc Forster, um alemão criado na Suiça, anteriormente reconhecido pela direcção do aclamadíssimo Finding Neverland, em 2004, esta mais recente página da já longa vida de Bond, James Bond, pode ser vista como uma boa desculpa para compilar empolgantes sequências de acção. Em boa verdade, o filme está pejado de momentos de grande intensidade visual, com fugas e lutas espectaculares, mas muito pouco mais.
Não será, aliás, injusto afirmar que os pontos mais positivos de Quantum of Solace residem precisamente em departamentos técnicos como os efeitos sonoros, visuais e especiais, bem como na edição magistral com que nos corta a respiração numa boa meia dúzia de cenas. Ao nível da realização, uma disciplina técnica, mas também artística, é-nos apresentada uma faceta de Forster que confirma a sua versatilidade.
Já ao nível das interpretações o mesmo não poderá ser dito. Embora se entenda a intenção de dar uma dimensão mais humana à figura de Bond, Daniel Craig recorre excessivas vezes aos mesmos argumentos. Seguindo-lhe a esteira, no papel de M, Judy Dench não traz novidades e a Bond Girl de última geração, Olga Kurylenko, dando vida a uma traumatizada Camille, é pouco incisiva, não conseguindo fugir a estereótipos. No contraponto, será talvez de referir o bem conseguido Dominic Greene, confiado ao francês Mathieu Amalric.
No campo da escrita, o guião mantém-se fiel à demanda pelo fim das grandes conspirações globais que ambicionam o domínio do mundo. No entanto, desta feita, o agente está sedento de vingança, pelo que “mata dois coelhos de uma cajadada só”. Como de costume há também alguns apontamentos de comédia, mas a toada geral é pouco surpreendente. Interessante é a referência feita no enredo à ideia de que quem controla os recursos de água controla a humanidade. Um trecho de ficção que, em breve, poderá ser inteiramente real.
Quantum of Solace é portanto mais um capítulo a acrescentar a vários. Traz alguns aspectos diferentes, mas muito pouco que não tivesse sido visto em Casino Royale. Contas feitas, é puro entretenimento e nesse campo está bem conseguido; as sequências de acção mantêm o público agarrado à tela, são vibrantes e de um ritmo alucinante. Para quem procura filmes com estes ingredientes, certamente não serão duas horas mal passadas.

