«Histórias que só existem quando lembradas» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Histórias que só existem quando lembradas, de Julia Murat, é uma viagem quase fantasmagórica a uma aldeia fictícia denominada Jotuomba, no Vale do Paraíba (Brasil). Aqui, as poucas pessoas que ainda permanecem no local são idosas que claramente não mantêm o contacto com o mundo há largos anos. Acaba assim por ser bizarra a chegada de Rita (Lisa Favero), uma jovem fotógrafa que seguiu os trilhos a pé e deu com a aldeia. Será Madalena (Sonia Guedes) que a vai receber na sua casa, mas todos os habitantes do local ficam intrigados com esta chegada, que vem – de certa maneira – abalar um pouco com a rotina do local, onde cada um parece ter um posto e a religiosidade do «antigamente» se mantém intacta.
 
A certo ponto até parece daqueles filmes futuristas em que já existem viagens no tempo, e que Rita vem do futuro (ela própria diz que nasceu na época errada). Carregado de silêncios que a fotógrafa contraria com os seus headphones (onde o momento Franz Ferdinand tem particular impacto), o filme acaba por focar algumas questões curiosas, como o isolamento e uma geração mais nova que não está habituada à ausência de ruído, que defende a igualdade (a conversa dos vícios das mulheres é um bom exemplo) e é insatisfeita por natureza.  
 
Para além disso, seguimos ainda algumas memórias do passado destes habitantes (as tais histórias que só existem quando lembradas), num filme com poucas conversas, pois parece que toda aquela gente já falou tudo o que tinha a falar e que agora espera – sem qualquer ansiedade – pelo fim (que será também a morte do local).
 
Não é claramente um filme para grandes audiências mas é o típico trabalhado que terá uma longa carreira nos festivais. Pena é não ser mais incisivo, pois toda a abordagem do envelhecimento, da interiorização e isolamento num mundo que se diz cada vez mais global (onde até a linha férrea já só é um objecto decorativo), fica apenas pela superfície. Ainda assim, este é um filme curioso de se ver, onde se destaca a belíssima cinematografia e a interpretação de Sónia Guedes, que consegue ter bastante carisma e muitas histórias para contar. Pena é não a ouvirmos mais…
 
Uma última nota de destaque para a produtora desta obra, a argentina Julia Solomonoff (El Último Verano de la Boyita). Apesar de este ser um filme brasileiro, ele tem claramente o dedo, ou antes, o estilo realista muito característico do cinema argentino, que nunca cai no erro mostrar de forma exagerada todos os passos das personagens e que também facilmente preenche os momentos mais mortos com formas variadíssimos elementos, como momentos de contemplação audiovisual (e aqui entra muito bem em cena a  já citada cinematografia). 
 
O Melhor: Sónia Guedes
O Pior: Acaba por ser mais superficial do que deveria ser
 
 
Jorge Pereira
Crítica originalmente escrita em dezembro de 2011

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