«Four Lions» (Quatro Leões) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)
Aquilo que O Rato que Ruge fez com o medo atómico, Dr. Estranho Amor com a Guerra Fria e até Três Reis com a Guerra do Iraque, Quatro Leões aplica ao terrorismo moderno. Tudo num estilo farsa, tudo com muita humanidade, mas também com o ridículo inerente ao fundamentalismo e à paranóia, em indivíduos alienados socialmente e mal amados após o 11 de Setembro.

Numa cidade britânica, quatro homens tem um plano secreto. Omar (Riz Ahmed) é um desiludido com a condição do muçulmano no mundo e o seu sonho é ser um soldado, um verdadeiro Mujahideen, e aborda isso com a sua esposa como se fosse à mercearia. Para Waj (Kayvan Novak) essa é a melhor ideia de sempre, especialmente se vier de Omar, a pessoa que normalmente pensa por ele.  Já Barry (Nigel Lindsay) é um tresloucado fundamentalista cujas ideias niilistas e paranóia extrema fazem dele uma caricatura excepcional. A sua teoria de comer os cartões dos telemóveis, entre outras fantasias, são uma verdadeira comédia. E ainda temos Faisal (Adeel Akhtar), o homem que fazia vozes diferentes (esta sequência é hilariante) para comprar lixívia e daí obter o composto ideal para bombas caseiras. Mas não pensem que Faisal pode ser um bombista suicida. Ele faz as bombas, mas não pode ser um mártir por causa do pai doente, um homem que até ‘já começou a comer jornal‘. Em vez disso ele treina corvos para a grande jihaad (não consigo escrever isto sem me rir). Finalmente, e a meio da obra, chega um quinto elemento. Um homem que também deseja ter um propósito na vida, enquanto continua a escrever rimas e a cantar rap contra o infiel.

Na verdade, este filme de Chris Morris é uma das comédias mais conseguidas do cinema britânico nos últimos anos, primeiro porque livra as suas personagens dos clichés básicos, por outro porque lhes dá humanidade – e com isto os erros – e finalmente porque o humor que possui é bastante inteligente e acessível, fugindo das piadas básicas ou do humor físico barato. E faz tudo isto sem gozar com a condição dos islâmicos ou muçulmanos, brincando sem nunca ser ofensivo.

O resultado é Quatro Leões, uma tragicomédia fulminante que merecia mais do seu distribuidor.

O Melhor: Tem momentos hilariantes
O Pior: Merecia maior destaque do distribuidor


Jorge Pereira
(Crítica originalmente escrita a 15 de setembro de 2010) 

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