Se há filmes que procuram descobrir o assassino, este não é um deles. Em A Morte de Belle (2024), a questão central não é quem matou?, mas antes: quem nos tornamos quando todos acreditam que fomos nós?
Realizado por Benoît Jacquot, a partir de um romance de Georges Simenon, o filme não tem como propósito resolver um crime. Pelo contrário, concentra-se na anatomia da suspeita, instalando no espectador um desconforto persistente até ao último minuto.
A narrativa acompanha a vida de um casal que acolhe a jovem Belle em sua casa. Pierre (Guillaume Canet) é professor de Matemática, homem metódico, fechado, obcecado por números, socialmente distante. Clea (Charlotte Gainsbourg) é a esposa dedicada, mas emocionalmente ambígua. No centro da história, Belle surge morta no quarto, vítima de estrangulamento.
O filme não se constrói em torno de uma investigação policial clássica. Vive antes do peso da suspeita que recai sobre Pierre. A cidade inteira passa a olhá-lo como culpado provável. Os olhares dos alunos, dos vizinhos, dos amigos e até das autoridades criam uma pressão crescente que adensa a atmosfera.
Há tensão, mas o ritmo é deliberadamente lento — por vezes excessivamente — e nem sempre aprofunda questões essenciais que poderiam reforçar o envolvimento do espectador.
A construção das personagens é, contudo, sólida. Pierre é uma figura opaca, quase impermeável à emoção. Clea revela-se mais complexa: dividida entre a lealdade ao marido e a dúvida que lentamente a corrói. É nela que o conflito moral ganha maior espessura.
Visualmente, o filme é coerente com a proposta. Interiores sombrios, paisagens frias, ausência de calor humano. A câmara mantém-se observadora, distante, quase clínica. Não comenta — apenas regista. Essa contenção cria uma ansiedade surda. A banda sonora recorre à repetição de um excerto de música clássica, associado às cenas de Pierre, reforçando um tom ligeiramente fetichista e inquietante.
No conjunto, trata-se de um filme que prefere a perturbação à catarse. Não oferece explosões dramáticas, nem respostas reconfortantes. Deixa antes um mal-estar que persiste para lá dos créditos finais.


















