A privação e as formas de reagir a ela, perante um cerco físico, psicológico e político que não surge como clímax, mas como estado permanente, são a chave-mestra de Chronicles From the Siege, vencedor da secção Perspectives do Festival de Berlim 2026.
O espaço da ação ecoa Gaza, mas poderia ser qualquer lugar na Palestina, ou, há umas décadas, em qualquer campo de refugiados em Beirute ou qualquer cidade síria. Aqui, o cerco assume-se como quase eterno, mesmo que a ação decorra em um par de dias, promovendo uma dilatação temporal que se revela uma das principais forças de imersão neste universo. O tique-taque de um relógio, ouvido no início e retomado no final, reforça essa sensação de urgência e de corrida contra um tempo que parece suspenso e é sempre adverso a quem tem de lidar com ele.
Há uma década, Abdallah Al-Khatib, realizador palestiniano-sírio responsável por obras como o documentário Little Palestine: Diary of a Siege (2021), viveu a sua própria experiência de cerco e privação em Yarmouk, em Damasco, durante a guerra civil síria. Aqui, leva-nos à Palestina através de um conjunto de pequenas histórias inseridas numa narrativa coletiva, estruturada como um filme coral em mosaico.
A ficção começa com um grupo de homens a disputar desesperadamente alimentos num espaço semelhante a uma prisão a céu aberto (Gaza), onde ninguém sai nem entra sem autorização das forças que controlam o território. Um homem filma tudo com uma pequena câmara cuja bateria, totalmente carregada no início, se esgota à medida que o filme se aproxima do fim. É um filme dentro do filme, mostrando o poder do registo como prova factual e do drama vivido num local onde a imprensa esteve interdita de entrar.
A primeira vinheta centra-se em Arafat (Nadeem Rimawi), um homem idoso com claros sinais de perturbação psiquiátrica, que definha perante a falta de medicação e a escassez generalizada de água, comida e outros recursos básicos. Também ele correu atrás da ajuda humanitária, mas regressou de mãos vazias. Segue-se um grupo de jovens que invade um videoclube, que mais tarde saberemos ter sido gerido por Arafat, à procura de bens, sobretudo madeira para enfrentar o frio de noites sem eletricidade, água ou gás. Encerrados nesse espaço enquanto a guerra ecoa lá fora e o medo de snipers se impõe, acabam por usar os próprios filmes como combustível. Posters nas paredes (Cinema Paraíso, Shining, Chronicle of the Years of Fire) e conversas sobre cinema (Bad Boys como filme de infância) marcam esta sequência, que ganha um peso ético e moral quando a sobrevivência exige queimar aquilo que antes alimentava o imaginário coletivo e quando se percebe que um deles aparentemente omitiu um pedaço de chocolate aos outros.
Outras histórias surgem, como a de um homem que troca um frigorífico por algumas passas de um cigarro, agora um luxo; um casal que tenta encontrar um momento de intimidade (de sexo, uma raridade num filme deste género), mas é constantemente interrompido; e, por fim, um hospital onde pacientes se acumulam e os recursos se esgotam em tempo real. A falta de sangue, já anunciada por mensagens transmitidas por megafone que invadem o quotidiano de todas as personagens, torna-se ali um elemento crítico. O caos está instalado, e decisões que envolvem vida e morte têm de ser tomadas em segundos, com decisões éticas e morais a serem pressionadas ao limite.

A urgência política e humana do filme é evidente, nem vale a pena debruçarmo-nos extensivamente sobre ela, mas Abdallah Al-Khatib evita, tanto quanto pode, as fórmulas fáceis na sua tentativa de mostrar uma realidade sob permanente tensão. Sem diluir a dureza da condição das suas personagens, ele insere humor, romance e suspense num retrato de vidas cercadas em várias camadas pela desorientação constante.
Esteticamente, cada vinheta assume uma abordagem própria, ajustada ao momento e à intensidade da pressão externa e interna. Planos fixos alternam com câmara à mão; planos maioritariamente fechados, ausência de horizonte e repetição de espaços, essencialmente de interiores, constroem uma sensação de claustrofobia persistente. A montagem sustenta essa tensão crescente, enquanto a fotografia ainda privilegia a luz natural, sempre que possível, e mantém-se atenta aos enquadramentos no jogo com a direção artística e o jogo da atuação.
No som, o cerco amplia-se através de silêncios, ruídos distantes de explosões, respirações e o tique-taque recorrente, que adensam um ambiente opressivo que, por vezes, se revela ainda mais poderoso do que as imagens. Já tínhamos visto a força do som num contexto de conflito em Gaza Sound Man, onde Mohamed Yaghi utilizava o desenho sonoro como ferramenta para transmitir o impacto emocional e físico da guerra. Aqui, essa dimensão surge integrada numa representação ficcional que, paradoxalmente, pode revelar-se ainda mais incisiva do que o olhar documental.



















