Fascinante na sua abordagem, que tantas vezes faz lembrar o cinema de Aki Kaurismäki, The Loneliest Man in Town constrói-se como uma docuficção melancólica sobre os últimos tempos de Al Cook, nascido Alois Koch, músico austríaco de blues, no apartamento onde vive desde sempre e do qual um promotor imobiliário o quer expulsar.

Usando essa casa como um local físico carregado de memórias, onde cada objeto guarda fragmentos de uma vida prestes a ser atropelada pela modernidade, a dupla austríaca Tizza Covi e Rainer Frimmel cria nesse espaço uma extensão da identidade deste homem, que ao longo da vida foi reunindo vinis, fotografias, cassetes VHS e outros objetos que chegam ao espectador como uma verdadeira cápsula do tempo. A memória passa pelo toque.

Filmado em 16 mm, repleto de planos fixos com preferência por luz natural e uma textura envelhecida, como se a imagem tentasse representar nela um desgaste da memória e a erosão de uma era, Cook — que simboliza o artista que nunca compromete a sua visão em troca de sucesso comercial — emerge como uma personagem carismática (e kaurismakiana) que vai primeiro resistir à saída do apartamento, mesmo que lhe cortem a luz na noite de Natal, que passa à luz das velas, ou a água logo a seguir. As coisas apenas mudam quando o promotor imobiliário aparece à sua porta com um capataz que promete infernizar a vida de Al caso ele não assine o papel de saída da habitação. A violência do ato não é exposta com qualquer ação física, predominando antes um humor seco que se revela imbatível nos confrontos dramáticos entre os dois homens, que inevitavelmente levam a audiência a rir, alienadamente, do que na verdade é bastante sério.

Após aceitar sair da casa, Al decide então que o próximo passo da sua vida é cumprir o sonho de uma vida e emigrar para os Estados Unidos — para Memphis —, algo que observamos como um gesto de fidelidade à música que moldou o seu percurso, mas também como um afastamento da Viena que já não reconhece. Se em The Only Living Pickpocket in New York, John Turturro declarava o seu amor a Nova Iorque, mas dizia que esta o estava a desiludir, Al tem semelhante abordagem a Viena, mas o destino são os blues.

Com um inglês americanizado, certamente aprendido a partir do seu fascínio por Elvis Presley, de quem guarda inúmeras recordações e material, Al começa a despachar quase todo o recheio da casa, recebendo compradores e colecionadores, encontrando-se ainda pelas ruas com conhecidos, como uma mulher por quem há décadas teve uma paixoneta. Num desses encontros com ela, ele fala do seu sonho americano e de uma história antiga sobre uma oferta de discos em vinil como prova de amor, saindo da boca dela uma resposta que levou a audiência da Berlinale aos risos e aplausos.

O ritmo do filme, sempre contido, profundamente observacional na quebra de uma rotina de vida, é sempre pontuado com escassos diálogos, sentindo-se até como uma faixa de blues, onde a derrota se transforma em transformação, e desta floresce a expressão.

Evitando sentimentalismos fáceis, sem nunca perder o sentido crítico em relação à realidade, Tizza Covi e Rainer Frimmel usam fundamentalmente a ironia e a melancolia como armas para falar de solidão, identidade e envelhecer; sobre perder e continuar. E nisso entregam um dos filmes mais deliciosos da Berlinale 2026, fazendo destacar o preço da autenticidade num mundo que recompensa a adaptação.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
the-loneliest-man-in-town-a-ultima-cancao-antes-da-partidaTizza Covi e Rainer Frimmel usam fundamentalmente a ironia e a melancolia como armas para falar de solidão, identidade e envelhecer; sobre perder e continuar.