De Arrival a Sharp Objects, passando por The Woman in the Window e o recente At the Sea, Amy Adams tem consolidado uma persona cinematográfica marcada pelo trauma, pela herança familiar e por uma autodestruição silenciosa. Tornou-se recorrente vê-la em colapso, ora presa ao alcoolismo, ora à depressão, mas quase sempre com uma possibilidade de redenção ambígua no horizonte. O seu talento permanece intacto, mas a repetição desse arquétipo começa a tornar a sua presença previsível, como se aguardasse uma reinvenção.

Por sua vez, Kornél Mundruczó, sempre aguerrido e provocador, revela uma forte apetência por personagens empurradas aos limites físicos e emocionais, além de famílias (e até sociedades) ameaçadas pelo colapso. De White God a Pieces of a Woman, e agora em At the Sea, regressa à sua obsessão pelo sofrimento como motor dramático, ainda que aqui, de forma mais contida do que a sua habitual visceralidade, o foco se desloque para uma tentativa de reconciliação, não apenas com o passado, mas também com o presente.

Realizador e atriz unem-se assim num filme que, à partida, pareceria o casamento perfeito, mas revela-se acima de tudo uma observação autocongratulatória; o enésimo ensaio redundante sobre famílias privilegiadas fraturadas que tentam lidar com o legado, corrigir erros e seguir em frente. At the Sea não tem nada de novo ou fresco para oferecer.

Após sair de uma clínica de reabilitação para tratar o alcoolismo — e não de umas férias em Bali, como o marido faz crer aos conhecidos —, Laura regressa à casa de família em Cape Cod. Determinada a reconstruir a relação com o esposo e os dois filhos, o reencontro é, porém, marcado por ressentimentos acumulados. Cada palavra, decisão ou gesto da mulher é sistematicamente escrutinado pela família, em particular pelo marido, Martin, e pela filha mais velha, Josie. À medida que Laura tenta uma nova aproximação, a relação problemática com o pai, um famoso coreógrafo, é revisitadas através de flashbacks que revelam uma verdadeira coreografia da dor, agora refletida nas decisões presentes da protagonista. Tendo herdado a companhia de dança do pai, Laura sente o peso de “organizar” a própria vida para garantir o futuro da estrutura artística e preservar a casa de família em Cape Cod.

Levar problemas de primeiro mundo ao cinema é sempre delicado, mas Joachim Trier resolveu essa equação com muita inteligência e arte em Valor Sentimental, na querela pai-filha. Já At the Sea parece optar pelos caminhos mais previsíveis e, nem mesmo Amy Adams consegue retirar o filme do marasmo autocomplacente em que a argumentista Kata Wéber e o realizador Kornél Mundruczó o deixam afundar. Salvam-se uns escassos momentos do conflito mãe-filha. Tudo o resto afunda.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
at-the-sea-amy-adams-e-kornel-mundruczo-afundam-se-em-drama-autoindulgenteRealizador e atriz unem-se assim num filme que, à partida, pareceria o casamento perfeito, mas revela-se acima de tudo uma observação autocongratulatória; o enésimo ensaio redundante sobre famílias privilegiadas fraturadas que tentam lidar com o legado, corrigir erros e seguir em frente.