Quem olhar à primeira vista para as sinopses e comparar as três longas-metragens de Teodora Ana Mihai nos últimos cinco anos achará que está perante obras completamente afastadas entre si. A verdade, porém, é que existem conexões, mesmo quando a distância geográfica entre os filmes se mede em milhares de quilómetros. Realizadora do bem-conseguido La Civil, que nos levava ao México e à busca desesperada de uma mãe pela filha desaparecida de 16 anos, a romena jogou depois em território europeu, mais concretamente em Bruxelas, na Bélgica, para falar de imigração romena em Traffic (2022), e visita agora uma das maiores tragédias que abalou a capital do país: a de Heysel.
A 29 de maio de 1985, antes da final da Taça dos Campeões Europeus entre a Juventus e o Liverpool FC, no Estádio de Heysel, o colapso de um muro, provocado pelo avanço de hooligans ingleses, levou à morte de 39 pessoas, a maioria italianas. Em comum entre os filmes é possível identificar aquilo que os liga e, de certa maneira, interessa à cineasta: sistemas que deveriam proteger as cidadãs e os cidadãos, mas que falham, e uma displicência ética e moral de quem deveria fazer cumprir a lei perante as vítimas.
Apesar de Teodora Mihai recorrer de forma insistente a registos documentais da tragédia e de colar a câmara ao rosto das personagens neste novo projeto exibido numa sessão especial na Berlinale, essa opção não funciona apenas como artifício artístico para nos transportar para o caos humano e sugerir claustrofobia. O problema é outro. Em Heysel 85 nota-se a léguas a escassez de recursos financeiros e de produção, e o resultado aproxima-se mais de um telefilme do que de um projeto verdadeiramente pensado para o grande ecrã.
Com essa escassez, e apesar de a cineasta revelar empenho em dignificar o tema e elevar o filme, tocando em muitos dos assuntos que têm moldado o seu percurso, o melhor que consegue é criar uma peça dramatúrgica extremamente limitadora. O olhar recai sobre os bastidores da preparação e do desenvolvimento de uma tragédia marcada pelo deixar andar. Nada naquele evento funcionou e a displicência reinou. Por um lado, o estádio não tinha condições para receber o jogo. Por outro, todos os envolvidos, de políticos a polícias e técnicos, agiram com uma displicência arrogante. O presidente do município surge como figura paradigmática dessa negligência, lembrando o seu congénere em O Tubarão (1975), mais interessado nas percepções que na realidade. Ainda antes do início da partida, o presidente da câmara sucumbe ao álcool e será a sua filha, Marie, também assessora de imprensa, quem assume a gestão da crise, entre operações de salvamento, identificação de corpos, diálogo com italianos e ingleses e sucessivos comunicados.
Ao lado dela surge Luca Rossi, jornalista que cobre o jogo para a televisão italiana e que viajou com familiares para assistir à final. Antes do apito inicial, hooligans britânicos lançam-se numa onda de violência contra uma bancada de adeptos italianos, muitos com bilhetes ilegais. Dezenas de pessoas morrem e grande parte do filme acompanha a busca de Luca pelos familiares desaparecidos, enquanto Marie tenta gerir a crise e tomar decisões que ninguém parece disposto a querer assumir.
Perante a tragédia, políticos e forças policiais enfrentam uma questão decisiva: cancelar o jogo ou deixá-lo prosseguir? Com o receio de que a interrupção pudesse agravar a situação e provocar nova escalada de violência, começa a ganhar forma uma decisão profundamente questionável, que Teodora Mihai evidencia dentro das limitações do próprio dispositivo cinematográfico, que poderia, aliás, ter seguido caminhos próximos de September 5, também centrado nos bastidores de outra tragédia.
Apesar deste caso, juntamente com o de Hillsborough, ter alterado o olhar das autoridades e das entidades que tutelam o futebol, obrigando a uma revisão profunda das condições de segurança e da responsabilidade institucional, o filme opta por fixar-se nos instantes de hesitação, naquele momento em que a preservação de uma ordem aparente se sobrepõe à gravidade do que já tinha acontecido. Nesse sentido, este é também um filme sobre o presente. Pena é não ser o filme que merecia.



















