Formalmente um exercício quase académico de composição, onde cada plano parece desenhado a régua e esquadro, convocando o historial do western clássico, mas filtrado por uma visão mais intimista, menos épica e mais sombria no seu exercício de época — próxima do que Robert Eggers (The Witch; O Farol) ou de um Hlynur Pálmason (Godland)  têm feito—, A Prayer for the Dying transporta-nos para o Wisconsin de 1870, na pequena localidade de Friendship. Aí, o isolamento, a fé rígida, os códigos morais e o trauma pós-guerra dão de caras com a chegada de uma doença fatal (difteria) que vem rachar a estrutura moral da comunidade de raízes escandinavas que migrou para os EUA.  Adquirindo uma relevância contemporânea inevitável, nem que seja pela memória recente de uma pandemia  a doença por aqui, inicialmente biológica, rapidamente se infiltra na esfera psicológica e o medo propaga-se mais depressa do que o vírus; a culpa transforma-se em paranoia; e a religião afirma-se tanto como espaço de consolo como de arma.

Baseado no romance de Stewart O’Nan, esta estreia nas longas-metragens de Dara Van Dusen faz de um cenário remoto e aparentemente tranquilo um verdadeiro laboratório de ética e de cerco moral, onde os enquadramentos, a luz e a cor — uma paleta de tons lodosos que se saturam de vermelhos escuros à medida que o contágio avança — são de tal modo controlados que qualquer tentativa das personagens em expandirem as suas construções dramáticas é esmagada pela forma. E se em termos de edificação atmosférica existe uma evidente grandiloquência, a distância emocional em relação às personagens é proporcional.

Jacob Hansen (Johnny Flynn, em boa forma), veterano da guerra, acumula na sua comunidade as funções de pastor, xerife e coveiro, carregando a culpa e a instabilidade psicológica desde que regressou da guerra há 5 anos, respondendo a tudo com a fé e um sentido de proteção. Quando a doença entra na cidade e faz as primeiras vítimas, a sua estrutura interna começa a fragmentar-se, entrando em cena o médico Doc (John C. Reilly) como contraponto de pragmatismo científico, que se pretende imune à histeria coletiva. Fé e razão tornam-se então eixo moral do filme, ainda que, nos momentos de maior ou menor pânico, à medida que os corpos se amontoam, os papéis de quem é quem se tornem menos definidos e as fronteiras entre ambos se confundam.

Inserido na secção Perspectives, A Prayer for the Dying revela um novo nome a ter em conta no panorama do cinema europeu, nem que seja por todo o rigor técnico da boa aluna da cinefilia, mas ainda há muitas arestas por limar, sobretudo na consistência e no equilíbrio entre essa rigidez formal e a necessidade de agarrar o espectador às personagens e ao seu sofrimento de forma mais visceral.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
a-prayer-for-the-dying-a-geometria-da-fe-e-do-medo A Prayer for the Dying revela um novo nome a ter em conta no panorama do cinema europeu, nem que seja por todo o rigor técnico da boa aluna da cinefilia, mas ainda há muitas arestas por limar, sobretudo na consistência e no equilíbrio entre essa rigidez formal e a necessidade de agarrar o espectador às personagens e ao seu sofrimento de forma mais visceral.