Três anos após o primeiro Terminator (1984), nas bandas desenhadas mensais da Marvel, Chris Claremont e John Byrne surpreenderam o meio com a premissa catastrofista Days of Future Past, na qual a mutante Kitty Pryde viaja no tempo para impedir uma tragédia que deixará o controlo da Terra nas mãos robóticas dos Sentinelas — ou seja, inteligências artificiais letais. James Cameron nunca foi chamado a responder por ter levado ao cinema um enredo semelhante, com Schwarzenegger a saltar de um futuro dominado por máquinas para um presente onde carne, suor e sangue servem de medida da humanidade. Escapou a acusações de plágio e consolidou-se como realizador ao assumir a tecnologia — em fricção com o ambiente — como fetiche temático.

Perante este historial, seria legítimo esperar de Gore Verbinski — apesar de a sua filmografia não ser das mais consistentes — algum rasgo de criatividade ao abordar o mesmo tema em Good Luck, Have Fun, Don’t Die (Boa Sorte, Diverte-te, Não Morras), apresentado na secção Berlinale Special numa gala de contornos hollywoodianos.

Exibido anteriormente no Fantastic Fest, no Texas, o novo filme do vencedor do Óscar de Melhor Animação por Rango (2011) marca o seu regresso após quase uma década de ausência, iniciada com A Cure for Wellness (2016). Há ecos da destreza visual que demonstrou na trilogia inicial de Pirates of the Caribbean (2003–2007), sobretudo nas sequências de ação que dão algum fôlego ao desfecho. Contudo, a submissão a um argumento que se dispersa em longos minutos a explorar tramas secundárias de personagens periféricas esgota rapidamente o pouco vigor narrativo. A tentativa indisfarçável de criar não apenas um novo Terminator, mas também um novo Matrix (1999), acaba por diluir qualquer singularidade.

Sam Rockwell, protagonista, é um intérprete de enorme intensidade (basta lembrar Moon, de Duncan Jones). Ainda assim, não é Schwarzenegger nem Keanu Reeves; o seu carisma não corresponde ao de um herói pop. A personagem que encarna aproxima-se mais de L’armata Brancaleone de Mario Monicelli do que de um messias destinado a salvar o mundo. A credibilidade do dispositivo fica comprometida.

Rockwell esforça-se por dar consistência a um homem sem nome vindo do futuro que irrompe num restaurante em Los Angeles. O que parece um assalto revela-se um recrutamento forçado: envergando um colete de explosivos, precisa de reunir a combinação certa de clientes para uma missão de salvação global contra uma inteligência artificial. Entre persuasão e ameaça, forma-se um grupo improvável — dois professores, uma mãe em luto, uma animadora de festas — que embarca numa fuga distópica sob perseguição da IA.

O guião de Matthew Robinson tenta alinhar-se com várias fórmulas de sucesso: adolescentes zombificados por smartphones, gadgets aparentemente inofensivos que se revelam armas letais e até um gato gigante devorador de pessoas. Quando estas bizarrices entram em cena, qualquer tentativa de reflexão sobre as ruínas do futuro perde consistência e o filme resvala para o artifício.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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