Frente aos numerosos títulos sobre metástases químicas que transformam as suas vítimas em monstros, espalhados pela indústria audiovisual desde Night of the Living Dead (1968), a aventura de horror leve Cold Storage é uma verdadeira delícia, pela sua preocupação em deixar o público conhecer as personagens sob múltiplos prismas. Não existem viragens bruscas em torno de nenhuma delas, mas há um clima de mistério permanente à volta do “monstro” que alimenta este The Walking Dead estequiométrico. A dinâmica dos zombies devoradores de cérebros, renovada recentemente com o audaz 28 Years Later: The Bone Temple (2025), de Nia DaCosta, cede aqui lugar a um outro tipo de criatura: um fungo.

Argumentista de êxitos milionários, entre os quais Jurassic Park (1993), o escritor David Koepp não oferece muitas respostas sobre a origem do mofo letal que sustenta a trama que escreveu com base no seu próprio romance homónimo. Farejou-se um potencial cinemático nas páginas do livro e a StudioCanal bancou uma adaptação, com Jonny Campbell (oriundo de séries como Westworld (2016)) na realização. O cineasta imprime à narrativa uma aura de inquietação típica de enredos de ficção científica de série B (como Lifeforce (1985) ou The Stuff (1985)), num flerte elegante com a tradição do género.

O guião bifurca-se em dois núcleos distintos, embora interligados pela acção do fungo letal. De um lado, dois funcionários de um armazém adquirido ao governo, Naomi (a excelente Georgina Campbell) e Teacake (Joe Keery), são confrontados com a evidência de que algo maligno parece ter despertado no local. No outro extremo, um militar reformado, especialista em combate ao bioterrorismo, Robert Quinn (um Liam Neeson de carisma renovado), regressa à actividade ao detectar sinais do meta-mofo que capturara anos antes.

Há cerca de 18 anos, sempre que o ator irlandês entra em cena — com raríssimas excepções, como Silence (2016) ou o recente The Naked Gun (2025) —, o público espera uma atmosfera carregada de pólvora, com bofetadas e tiroteios em abundância. Cold Storage tem alguns disparos pontuais, mas segue uma via mais próxima da ficção científica pop dos anos 1980 e 1990, com um acabamento dramatúrgico surpreendentemente cuidado. Em regra, os filmes protagonizados por Neeson em produções de baixo orçamento não revelam essa ambição formal. Nem sequer o todo-poderoso Taken (2008), o fenómeno que relançou a sua carreira — custou 25 milhões de dólares e valeu 227 milhões —, a possuía.

O ator, por vezes, envolve-se em projetos sólidos, como Memory (2022) ou A Walk Among the Tombstones (2014). Mas, no geral, as suas escolhas orbitam a manutenção da persona heróica que construiu ao longo das últimas duas décadas. Em Cold Storage, nota-se um interesse mais claro pelo risco ecológico associado à depredação da Natureza. A presença de Lesley Manville e da diva Vanessa Redgrave (ex-sogra de Neeson), em personagens de peso, reforça a vitalidade artística de um espectáculo com ambições formais bem sustentadas na fotografia dionisíaca de Tony Slater Ling.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/c3pl
Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
cold-storage-a-quimica-da-inteligenciaA aventura de horror leve Cold Storage é uma verdadeira delícia, pela sua preocupação em deixar o público conhecer as personagens sob múltiplos prismas