Descaradamente copiado de Triangle of Sadness, num copy + paste tão indisfarçável da Palma de Ouro de 2022 que inclui até uma sequência de vômitos aos litros, Send Help (traduzido como Socorro!, em Portugal e no Brasil) patina trôpego entre a escatologia, o horror gore e o tédio intelectual. Corre nesses trilhos numa tentativa desesperada de seu realizador, (o irregular) Sam Raimi, para se vincular à vaga de filmes que estereotipam o masculino até o limite do caricato. Ponha aí desde produções cercadas por certo culto (como Mr & Mme Adelman e Oeste Outra Vez) até títulos rasgadamente comerciais (tipo Isn’t It Romantic). A sua desculpa é o desejo de escancarar o sexismo a partir das relações de abuso profissional, um assunto mais do que urgente, só que tratado, no argumento de Damian Shannon e Mark Swift, de modo superficial, com situações meramente demonstrativas, nas raias da pornografia sociológica. Binómio indiscutível de sagacidade cénica e carisma, Rachel McAdams faz o que pode para injetar vida na sua personagem, Linda Liddle, mas só o que lhe oferecem são esboços arquetípicos. Com os poucos elementos dramatúrgicos que tem, ela ensaia construir uma transformação redentora que não soa crível.
Raimi foi uma das maiores promessas do terror, nos tempos de The Evil Dead (1981), e teve um flirt respeitoso com esse filão, que o revelou, em 2022, ao rodar a continuação de Doctor Strange (2016) para a Marvel, numa (bem-sucedida) conversão do que deveria ser uma longa de super-heróis em um espetáculo macabro, por vezes assustador. A indústria das BDs ganhou um aporte essencial dele na franquia Spider-Man, entre 2002 e 2007, quando o realizador, no apogeu da forma, apoiado no talento de Tobey Maguire, fez do Homem-Aranha o pavimento para um império de produções derivadas em heróis mascarados e vilões como o Dr. Octopus. Testou ali um formato de maniqueísmo que era salpicado por dilemas existenciais. O protagonista (Peter Parker) tinha impasses morais e os antagonistas dele (como o Homem-Areia e o Duende Verde) demonstravam rasgos de humanidade… e até de altruísmo…nos seus jorros de maldade.
As fronteiras entre Certo e Errado, que Raimi borrava na sua exposição sobre o Bem e o Mal na sua trilogia aracnídea, perdem por completo suas zonas limítrofes em Send Help. O novo trabalho de um realizador que já acertou bonito no passado (vide Darkman) parece incapaz… um segundo que seja… em fazer a plateia duvidar das reais intenções das figuras diante de si. Mesmo quando monstruosidades são ensaiadas por Linda Liddle, essas parecem justificadas por seu fenótipo (o universo laboral a seu redor), uma vez que o mundo cão em seu entorno merece todo o troco que recebe… por mais desumano que seja.
Craque na matemática, Linda (McAdams) acredita ser talhada para o cargo de vice-presidente no escritório onde trabalha, apesar de sua autoconfiança não mobilizar em nada o novo CEO, Brad (Dylan O’Brien, numa composição sem meios tons, num arremedo do perfil capitalista malvado). No guião, ele é um sujeito apolíneo, habilidoso no golfe, endinheirado e… machista. Não há um traço de credibilidade nessa composição. Ele é um snob imperdoável, nada mais, o que já nos tira, por completo, qualquer empatia com ele, desumanizando Send Help de caras.
Amparada no empenho de McAdams, Linda é retratada como uma figura deslocada, com trajes (de tom kitsch) que não condizem com o código de vestimenta da empresa. Os colegas não suportam o seu jeito falador e desdenham a sua fixação por sanduíches de atum, que, segundo a equipa, deixam um mau cheiro no ambiente de trabalho. Logo que Brad a conhece, um resto de maionese com peixe escorre pelos lábios, criando uma figura dissonante.
Logo se imagina que o filme vá caminhar por uma linha à la Pigmaleão, ou seja, a jovem de modos atrapalhados vai desabrochar numa heroína clássica. Não é o que nos entregam. Raimi, refém das patrulhas ideológicas, prefere abraçar outra ideologia: a do individualismo pleno.
Após um desastre aéreo (a única sequência vívida na película, por seguir os moldes trash do velho Raimi), Linda fica presa com Brad numa ilha no que parece os arredores da Tailândia (enquadrada burocraticamente pelo fotógrafo Bill Pope). Salva-o da morte e aproveita o facto de ele estar ferido, para tentar “curá-lo” de sua sanha controladora e opressora. Numa fagulha, pouco convincente, percebe que não há o que fazer e caminha para uma construção onde cuidar de si, sem se preocupar com os demais, é a melhor solução. Passa, então, ao estado de predadora. É como se o artista que um dia se abraçou à fantasia, para defender um princípio de esperança na América pós-11 de Setembro, com o seu Peter Parker quixotesco, passasse a defender um ideal liberal onde vale tudo para sobreviver – entendendo-se o “sobreviver” como tomar para si os lucros e louvores.
Este tratado da cultura do indivíduo (acima de todas as coisas) é narrado com soluções clichês e arroubos de violência nos quais Raimi tenta (em vão) resgatar procedimentos do que fazia quando filmava com tostões (em baixíssimo orçamento), embora tenha desaprendido a fazê-lo. O que fica é um conto (a)moral sem dinamismo, onde a banda sonora de Danny Elfman é o único resquício poético.


















