Numa toada próxima da do oscarizado Flow, a aventura de tintas lúdicas Papaya dispensa a palavra como artifício de comunicação e concentra-se no movimento, confiando e depurando a potência narrativa da cinemática para criar uma epopeia animada onde ecologia e existencialismo partilham espaço de forma fraterna. Integrada na secção Generation da Berlinale, a longa-metragem escrita e realizada por Priscilla Kellen, que assume também a direção de arte, tem como protagonista uma semente de mamão.

A dinâmica dramatúrgica assenta em peripécias, o que facilita, e muito, a sua relação com plateias de crianças ainda na fase dos dentes de leite, mas avança por camadas mais profundas do que a simples correria pela sobrevivência. O filme explora as angústias da sua protagonista perante um mundo de escolhas que começa a desenhar-se à sua frente. Criar raiz no solo e transformar-se em árvore seria o seu destino natural, mas a ambição de voar, inspirada por uma joaninha, leva-a a desejar mais.

Assente numa montagem pontuada por vaivéns frenéticos, assinada por Elaine Steola — particularmente lúcida na gestão dos momentos de maior introspecção da heroína —, Papaya funciona como uma espécie de curso sobre o cultivo vegetal, da sedimentação à colheita, sem cair em didatismos enciclopédicos. O filme aborda ainda, com um tom assumidamente alarmista, o predatismo industrial que arranca frutas, verduras e legumes da terra, num sistema de desenraizamento cruel e desrespeitador dos ritmos naturais.

É neste território que Kellen estabelece uma genealogia com outros marcos da animação brasileira que articularam preocupações ambientais com narrativas de amadurecimento das suas personagens. Sinfonia Amazónica (1951), de Anélio Latini, surge como referência histórica inaugural. Mais recentemente, Tainá e os Guardiões da Amazónia – Em Busca da Flecha Azul estabelece igualmente uma relação de parentesco com o percurso da pequena semente de mamão, que sonha flanar pelos céus até compreender que cumprir o próprio destino não implica submissão a um fado trágico — a natureza tem ciclos, e estes exigem respeito.

Em sinestesia harmoniosa com o trabalho sonoro do coletivo Submarino Fantástico, Papaya alcança relevância política aos olhos do público adulto, sem abdicar do lirismo que atravessa tanto crianças como espectadores há muito afastados da infância. O filme apoia-se num colorido quase lisérgico e brinca com formas geométricas nos seus planos, de modo a emular a arquitetura plural das florestas — e, em paralelo, as progressões aritméticas e geométricas da imaginação humana.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
papaya-casa-com-harmonia-o-existencialismo-e-a-ecologiaEm sinestesia harmoniosa com o trabalho sonoro do coletivo Submarino Fantástico, Papaya alcança relevância política aos olhos do público adulto, sem abdicar do lirismo que atravessa tanto crianças como espectadores há muito afastados da infância