Em junho de 2017, um incêndio florestal atingiu a aldeia de Pedrógão Grande e concelhos vizinhos. Sessenta e seis pessoas perderam a vida num fogo que destruiu total ou parcialmente cerca de 500 casas e aproximadamente 53 mil hectares de território. A maioria das vítimas mortais — 47 pessoas — seguia em viaturas e ficou cercada pelas chamas na Estrada Nacional 236-1, entre Castanheira de Pêra e Figueiró dos Vinhos, ou em acessos à mesma via. Estima-se que cerca de meio milhão de euros tenha sido desviado por proprietários de casas não afetadas pelo incêndio, revelando que há corrupção mesmo em contextos de tragédia extrema. Soma-se a isto o recorrente descaso do poder público, que todos os anos assiste à repetição dos incêndios em Portugal sem adotar medidas eficazes para evitar mortes humanas e catástrofes ambientais. O desequilíbrio climático está presente — só não o vê quem não quer — e é causado pelos próprios seres humanos.

Este passado traumático e a questão da emergência ecológica inspiraram o excelente filme Justa (2025), da veterana realizadora portuguesa Teresa Villaverde. Produzido pela Alce Filmes e coproduzido pela francesa Epicentre Films. O filme foi rodado nos municípios de Oleiros e Pampilhosa da Serra, locais igualmente afetados pelos incêndios de 2017. 

A ficção constrói a narrativa das cicatrizes profundas e indeléveis deixadas na vida de cinco personagens reduzidas à dor, com traumas físicos e psicológicos distintos, provocados pela catástrofe. A câmara acompanha pessoas que perderam familiares próximos e bens materiais e que, anos depois, tentam reaprender a viver.

Justa, vivida por Madalena Cunha — que não é atriz — é uma menina de 10 anos, destemida e legitimamente revoltada. O pai, Mariano, ficou com o corpo totalmente deformado por queimaduras de terceiro grau, e a mãe perdeu a vida no incêndio. Mariano afirma ser um homem dominado pela saudade do passado e, apesar de profundamente dilacerado fisicamente, recusa aceitar a indemnização da câmara municipal, pelas chamas a que o corpo sucumbiu. Justa cuida do pai com dedicação, revela um profundo amor pela natureza e pelos animais e, numa cena marcante, comenta com a médica da aldeia que leu recentemente sobre rinocerontes em extinção, e questiona: “Como saberemos se as pessoas irão se interessar por isto no futuro?” A reflexão ecoa a ideia central do filme: a necessidade urgente de nos reconetarmos com a natureza e de mudarmos o nosso comportamento, lembrando que não somos os únicos seres do planeta, tampouco superiores aos demais.

Elsa, interpretada magistralmente pela veterana atriz brasileira Beth Faria, é uma mulher idosa que presenciou a morte do marido através dos vidros do carro em que seguiam, perdendo assim quem mais amava. O fogo deixou-a viúva, cega e mergulhada num luto profundo e doloroso.

A personagem confessa viver com o medo constante de perder a memória de como as coisas eram antes da cegueira, como se esse apagamento lhe roubasse também o passado. Elsa tem uma filha que vive noutra aldeia e que a culpa pela morte do pai, e uma neta de quem gostaria de se aproximar. No entanto, esse desejo é negado pela própria filha, reforçando o isolamento emocional de Elsa e tornando ainda mais pesada a perda afetiva que o fogo levou.

Há também um rapaz adolescente que perdeu o pai e a mãe para as labaredas, e vive a vaguear sozinho pelo cemitério ou pelas ruas e matas secas da aldeia, onde tenta sobreviver em meio a marcas psicológicas dilacerantes deixadas por uma tragédia que continua a consumir a personagem por dentro.

A jovem médica, vivida por Filomena Cautela, tenta ajudá-las, apesar da sua própria fragilidade e dos conflitos internos que a atravessam.

Numa conversa com Justa, a menina recorda algo que a atormenta profundamente: a visão da mãe a morrer, derretida no alcatrão, no asfalto da estrada por onde passava no momento do incêndio. Evoca também uma memória boa do passado, quando, pelas manhãs, ia pescar ao rio com a mãe, perto de casa — uma imagem que guarda como consolo íntimo e último refúgio emocional.

Por mais cuidadosa que a realizadora seja, expõe a fragilidade humana, o padecimento das árvores zombies e de personagens condenadas às consequências das lavas do fogo, pessoas que agem como se fossem fantasmas, sofrendo a aflição de já não poderem ser quem foram. Como se tudo nelas tivesse sido queimado ou destruído por um vulcão incontrolável. São vítimas do fogo, afetadas por dentro e por fora, umas menos, outras mais; as feridas corporais e afetivas estão à vista. Ainda assim, encontram força para se ajudarem, são compassivas umas com as outras, como se formassem uma família.

A ficção de Teresa Villaverde, do início ao fim, retrata questões humanas e sociais intimamente ligadas às questões ecológicas e às implicações do desequilíbrio climático, seja como tema central, seja nos diálogos, seja nas locações onde foi filmada, bem como nas referências à fauna e à flora que ali existiam, como as castanheiras com meio século de vida. Justa é um filme que traz olhar necessário na atualidade, num tempo em que urge prestar atenção às questões ambientais, dentro e fora do Cinema. Continua a ser raro encontrar esta reflexão em filmes de ficção, sendo este o primeiro filme de Villaverde a abordar diretamente esta temática.

Justa é um filme poderoso, talvez mesmo uma denúncia social, simultaneamente emocionante e desestabilizador. Apresenta uma estética ecológica, poética e silenciosa, onde os sons que sobressaem são os dos poucos animais e grilos que restaram, além do ranger das portas das casas enlutadas.

As imagens são filmadas em tons muito escuros — verdes e cores de terra — compondo uma escuridão que exprime os tormentos íntimos e corporais das personagens, falidas física e emocionalmente, secas como a paisagem devastada que as rodeia. As personagens estão condenadas a preservar o pouco de bom que restou do passado, porque o presente e o futuro são demasiado dolorosos para suportar e enfrentar.

Interpretações notáveis de três mulheres protagonistas, mulheres de três diferentes gerações. Os planos, maioritariamente fechados, contribuem para intensificar o que cada personagem sente, aproximando o espectador da sua fragilidade e resistência. Trata-se de um filme que deve ser visto e reverenciado por quem respeita a vida humana e o meio ambiente. Esteve recentemente nos cinemas em Portugal; fiquem atentos a sessões especiais, cineclubes e às plataformas de streaming.

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Pontuação Geral
Lídia ARS Mello
justa-e-os-incendios-em-portugal-cicatrizes-indeleveis Justa é um filme que traz olhar necessário na atualidade, num tempo em que urge prestar atenção às questões ambientais, dentro e fora do Cinema. Continua a ser raro encontrar esta reflexão em filmes de ficção, sendo este o primeiro filme de Villaverde a abordar diretamente esta temática.