Lançado em pleno dia de Natal, com os olhos postos nas bilheteiras da temporada festiva de fim de ano, Anaconda é uma longa-metragem que facilmente desperta riso pela sua retidão num escárnio elegante do filão do filme de monstro. Há deboche em relação à linhagem cinematográfica que nos leva a temer criaturas gigantes, avessas ao que se entende por humano, mas, apesar disso, existe respeito pelas cartilhas dessa práxis, expresso na engenhosa administração de adrenalina em sequências de fuga e perseguição. Mesmo quando estas investem numa linha de chanchada, de farsa burlesca, há tensão — e há uma criatura que intimida. Assim, o acerto da produção pilotada pelo realizador Tom Gormican opera em dupla via: a ironia e o thriller.

A atuação luminosa de Jack Black, numa trama de natureza metalinguística, evoca um trabalho digno de culto da personagem: Be Kind, Rewind (2008), de Michel Gondry. A genealogia a que Gormican pertence incorpora, de certa forma, espólios do artesão francês, algo que se torna evidente quando se revê o seu trabalho com Nicolas Cage em The Unbearable Weight of Massive Talent (2022).

Soa nulo o uso do termo reboot ou o emprego da palavra remake em associação a esta produção de 45 milhões de dólares, que concede à personagem do ator e realizador brasileiro Selton Mello — de Ainda Estou Aqui (2024) — a oportunidade de iniciar uma carreira paralela no exterior. Trata-se, antes, de uma legacy sequel, jargão da indústria audiovisual para designar continuações de legados históricos. O Anaconda de 1997 não foi um objeto que tenha feito História, com H maiúsculo, mas revelou-se importante, pelo seu elevado faturamento, para transformar Jennifer Lopez numa estrela de ecrã, em paralelo com a sua consagração musical, além de ampliar o fetiche de exotismo associado à selva amazónica. Filmado pelo peruano Luis Llosa, primo do escritor Mario Vargas Llosa, o original custou igualmente 45 milhões de dólares, arrecadou 137 milhões e consolidou JLo como vedeta, ao lado da presença caricata de Jon Voight como vilão. A atriz integrava um grupo de expedicionários em busca de tesouros da fauna e da flora brasileiras, atacados por uma serpente quilométrica e faminta.

Na releitura de 2025, sob uma realização segura de Gormican, Doug (Jack Black) e Griff (Paul Rudd) são amigos de fé e irmãs camaradas desde a infância, unidas pelo sonho de refazer o filme favorito das suas vidas: o “clássico” cinematográfico de Llosa. Doug dirige uma empresa de vídeos de casamentos, munida de ideias mirabolantes sistematicamente recusadas pelas clientes. Quando uma crise de meia-idade se instala, a dupla decide avançar e ruma aos confins da Amazónia para iniciar as filmagens, acompanhada pela advogada e aspirante a estrela Claire (Thandiwe Newton) e pela diretora de fotografia Kenny (Steven Zahn). A elas junta-se Santiago Braga, personagem de Selton, especialista em répteis, que se oferece para ajudar — com a opção de levar consigo uma cobra de estimação, solução que dura pouco.

O golpe de sorte que o grupo esperava dar vai por água abaixo quando uma anaconda GG real surge em cena, transformando o set caótico e cómico num convite à morte. A partir daí, instala-se um torvelinho de encrencas, com espaço para um debate sobre a extracção ilegal de recursos amazónicos, envolvendo as personagens de Daniela Melchior — mal explorada — e de Rui Ricardo Dias, que se destaca no tempo de ecrã de que dispõe.

Amparado pela montagem dinâmica de Craig Alpert e Gregory Plotkin, hábil a valorizar piadas e tiradas galhofeiras num turbilhão de tensão, Gormican permite que a direção de fotografia de Nigel Bluck brinque livremente com clichés de luz e chiaroscuro típicos dos enredos de florestas selvagens, evocando memórias saborosas de Creature from the Black Lagoon (1954). Alligator (1980), de Lewis Teague, surge como outra boa recordação neste jogral cinéfilo divertido, em que Selton tem tempo para se adaptar às metodologias hollywoodianas e brilhar com um jeito à Will Ferrell de parecer pateta.

Não perca as várias cenas extra durante os créditos e após o seu encerramento. Abra bem os tímpanos para a canção-título de Randy Edelman.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
anaconda-escarnio-com-respeito-pela-cinefiliaAmparado pela montagem dinâmica de Craig Alpert e Gregory Plotkin, hábil a valorizar piadas e tiradas galhofeiras num turbilhão de tensão, Gormican permite que a direção de fotografia de Nigel Bluck brinque livremente com clichés de luz e chiaroscuro típicos dos enredos de florestas selvagens