Formada num liceu bilingue, Jodie Foster fala francês como se fosse a sua língua materna, com uma destreza gramatical que coloca ao serviço de uma das suas interpretações mais festivas em Vie Privée (2024). Há um osso duro do filão policial, com uma finesse à Agatha Christie, na intriga que a realizadora Rebecca Zlotowski coescreveu com Anne Berest e Gaëlle Macé, mas sente-se, no desenrolar, um humor subtil. O princípio do whodunit (a procura de quem cometeu o crime) mantém-se firme, embora, a certa altura, interessem mais as interações da protagonista com o ex-marido — vivido com charme por Daniel Auteuil — do que o caso em si. A comédia de costumes à francesa sobrepõe-se com naturalidade à intriga detetivesca, com um agrado extra para a ala cinéfila: a presença de Frederick Wiseman, figura maior do documentário norte-americano.

A esbanjar intimidade com os clichés do suspense, num trabalho de realização tão sólido quanto Grand Central (2013), Zlotowski oferece em Vie Privée (2024) um raio-x completo da sua personagem, Lilian Steiner (Foster), psiquiatra e também psicanalista de prestígio. Quando uma das suas pacientes, Paula (Virginie Efira), morre, Lilian fica perturbada. Convidada para uma vigília na casa da falecida, é expulsa pelo viúvo, Simón (Mathieu Amalric), que a acusa de ter matado a mulher. Ao saber que a causa da morte foi suicídio, Lilian convence-se de que Paula terá sido levada a matar-se — há cheiro de homicídio no ar — e decide investigar por conta própria. Só que, abalada, não consegue avançar. Procura então o ex-amor, Gabriel (Auteuil), oftalmologista, que não encontra nada de errado com ela. A partir de uma conversa recente com um paciente, Lilian consulta uma hipnoterapeuta (Sophie Guillemin). Numa sessão em que mergulha num passado real e imaginado, encontra alguma paz, mas continua sem respostas sobre a morte de Paula. Resolve, por isso, envolver Gabriel na sua busca por indícios de culpa de Simón.

Daí nasce um divertido jogo de gato e rato, em que mágoas e alegrias afetivas do passado com Gabriel são retomadas e recicladas, numa dramaturgia sem grandes ousadias, mas saborosa. A câmara, na direção de fotografia dionisíaca de George Lechaptois, não se rende a esquematismos e propõe soluções visuais criativas, enquadrando as peripécias de Lilian sem ortodoxia. A montagem de Géraldine Mangenot dá ritmo e leveza ao conjunto, ajudando a fazer deslizar o filme entre o policial e a comédia sem perder o fio.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
vie-privee-agatha-christie-a-francesa A comédia de costumes à francesa sobrepõe-se com naturalidade à intriga detetivesca, com um agrado extra para a ala cinéfila: a presença de Frederick Wiseman, figura maior do documentário norte-americano.