Idealizado em 2019, mas só realizado após a pandemia e lançado no TIFF, em Toronto, em 2025, a fim de capitalizar sobre o prestígio recém-recuperado de Brendan Fraser após o Óscar de A Baleia (2022), a comédia dramática Rental Family (Família de Aluguer) avançou pelas Américas adentro via Festival do Rio, do qual deve sair com o título de feel-good movie do ano. Mitsuyo Miyazaki, conhecida apenas como Hikari, refastela-se no carisma gigante do astro de A Múmia (1999) no seu empenho em encarar a persona do sujeito afável nocauteado pela crueza da vida. O olhar etnográfico sobre um Japão de ritos pop lembra Lost In Translation (2003), embora sem a mirada existencialista de Sofia Coppola, cuja ausência é compensada — através do “lugar de fala” da realizadora — por uma crítica de costumes nas raias do kitsch. O anúncio de creme dental que se torna um fenómeno em terras nipónicas é um dos alvos.
Phillip Vandarploeug (papel de um Fraser todo pimpão) é um ator americano sem sucesso na sua pátria natal que mora em Tóquio e vive de pequenos trabalhos. A publicidade paga-lhe as contas até que é chamado para uma agência de “famílias de aluguer”, cujo serviço consiste em oferecer aconchego a corações assolados por ausências. A cada trabalho que lhe atribuem, Philip interpreta uma figura diferente, ritualizando o conceito dramatúrgico da “identidade performativa”, antes explorado nas raias da experimentação por Leos Carax no sublime Holy Motors (2012). A tónica de Hikari é a doçura — e não as confusões entre o “ser” e o “estar”, o perpétuo e o provisório.
Phillip sabe muito bem quem é e o que ambiciona. À medida que se imerge nos mundos dos seus clientes, começa a formar laços genuínos que esbatem as linhas entre a performance e a realidade. A tarefa de ser pai de uma miúda e a missão de entrevistar um astro reformado (e muito solitário) dão um nó no seu coração. Confrontando as complexidades morais do seu trabalho, redescobre o propósito, o sentimento de pertença e a beleza silenciosa da conexão humana.
A fotografia de cores primaveris de Takurô Ishizaka imprime leveza ao visual de um filme que se candidata a êxito popular, alicerçado na precisão de Fraser em humanizar o arquétipo do perdedor. É um Frank Capra multicultural, deliciosamente divertido.




















