Uma máxima existencialista — das belas — transbordou de uma minissérie brasileira da HBO Max, Máscaras de Oxigénio (Não) Cairão Automaticamente, para os ecrãs: “Um filme de terror não tem heróis; tem sobreviventes.” Em certa medida, simpatizamos com Drácula, não para que ele morda jugulares, mas para que se humanize. Esse impulso, porém, só surgiu após a versão de Francis Ford Coppola da prosa de Bram Stoker (1847-1912), em 1992. Nunca deixámos, no entanto, de desejar que as suas vítimas — como lembra a teledramaturgia de Máscaras de Oxigénio (Não) Cairão Automaticamente — sobrevivam.

A noção de sobrevivência que se observa no vibrante Love Kills (2024) — um inesperado e bem-vindo investimento da América Latina no universo vampírico — é ambivalente, pois serve tanto a humanas demasiado humanas como a mortas-vivas cuja sede se sacia com sangue humano.

Luiza Shelling Tubaldini, a realizadora, construiu um percurso de sucesso, com passagem pelo Festival de Toronto e distinções no streaming, sempre em diálogo com diferentes géneros. Mostrou-se à vontade na comédia (O Concurso (2013)) e no thriller (Motorrad (2017) e A Princesa da Yakuza (2021)) e faz algo que muitas produções dedicadas a géneros consagrados raramente executam com verdadeira destreza: estudou a fundo as convenções dramatúrgicas de cada registo e aplicou-as com mestria. Há sangue, há medo, há aquela poesia crepuscular da angústia da vida eterna, e há a sensualidade que, desde Stoker, fez do povo cainita — aquele que derrama o sangue alheio por ambição — um fetiche.

O termo cainita vem do jogo de interpretação de personagens (role-playing game, ou RPG) Vampiro: A Máscara (1991), de Mark Rein-Hagen, que propõe, numa leitura mitológica, que as vampiras são Filhas de Caim, descendentes, portanto, do primeiro homicida da história, aquele que matou o irmão Abel por capricho.

As vaidades das personagens de Love Kills estão já na sua origem: a banda desenhada de Danilo Beyruth, desenhista que domina o preto e branco como um verdadeiro mestre das artes gráficas. O seu traço — vide O Bando de Dois (2010) — é marcado por uma movimentação digna dos filmes de Buster Keaton. O que torna fascinante a transposição de Shelling para o Cinema é precisamente a capacidade de reproduzir essa fluidez nas sequências de ação, que evocam — e muito — a pedra basilar do império Marvel nas salas de Cinema: Blade (1998), com Wesley Snipes.

Convocado para Espanha, para tentar a sorte na maior montra do Cinema fantástico — o Festival de Sitges, agendado de 9 a 19 de outubro —, Love Kills explora aquilo que já não tem remédio na humanidade através da figura do pequeno empresário Ronaldo, interpretado pelo sempre preciso Marat Descartes. As palavras “bosta” e “merda”, ditas com o s e o r característicos do sotaque paulista, ecoam de forma tonitruante nos nossos ouvidos, a rotular a fraqueza de quem não se encaixa numa medida burguesa de sucesso.

É o caso de Marcos (Gabriel Stauffer), que sonha ser cozinheiro numa metrópole devastada pelo crack. A esperança é o seu vício. O pouco de alívio que encontra no trabalho num restaurante surge ao servir um café a uma cliente exótica, Helena (Thais Lago, firme e feroz em cena, qual valquíria mitológica). O que ele não sabe é que a freguesa se alimenta de hemácias e leucócitos.

Vê-la voar — sim, voar — abraçada a um agressor desperta-lhe suspeitas, mas não arrefece o desejo. Aos poucos, a sua fragilidade dá lugar a uma vitalidade protetora, sem o transformar num salvador masculino. Os dois hão de salvar-se mutuamente, na lógica do que um poeta de outrora, e por isso mesmo de sempre, Lindolf Bell, escreveu: “sempre há duas solidões que se aguardam.” O que Shelling faz de mais louvável é perfumar esse “aguardar” com adrenalina, o que torna Love Kills mais próximo de Jason Statham do que de Bela Lugosi, embora a inquietude da alma de quem perdura pela eternidade esteja lá, em foco.

Erom Cordeiro assume o papel de vilão, com um timbre à Jeremy Irons, na melhor tradição dos vampirões malévolos do Cinema de série B, a declarar o que entende como sua posse. A força política do guião inspirado por Beyruth, com LG Bayão na consultoria, reside em revelar o quanto a ambição de pertença é semelhante em humanas, como o vil Ronaldo, e monstros. Tudo embalado numa direção artística de grande requinte.

É um filme que vale aplausos pela audácia e pela ligação a uma linhagem fantástica que inspirou êxitos como a saga Underworld (2003), iniciada com Kate Beckinsale.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/v3m8
Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
love-kills-corre-adrenalina-na-jugular-de-bram-stokerO que Shelling faz de mais louvável é perfumar esse “aguardar” com adrenalina, o que torna Love Kills mais próximo de Jason Statham do que de Bela Lugosi