Momentos antes de entrarmos num set de filmagens no qual “a última grande estrela do cinema” contracena com um cão, Noah Baumbach recorre a uma epígrafe para abrir Jay Kelly e escolhe a poeta Sylvia Plath (1932-1963) para essa tarefa, autora que escreveu: “Dentro de mim mora um grito. De noite, ele sai com as suas garras, à caça de algo para amar”. É um pouco o que se passa com a personagem do título, que faz o filme transbordar os próprios limites que o realizador, conscientemente, impõe à narrativa ao tentar confiná-la a uma linha cómica de pouca amplitude, sem dar conta do drama que nela se insinua. Aliás, Baumbach não é propriamente um comediógrafo, embora tenha impresso humor em títulos hoje subestimados, como Greenberg (indicado ao Urso de Ouro em 2010). Ainda assim, há momentos de riso, porque Baumbach é um criador fiel ao ditame da própria Plath: “O pior inimigo da criatividade é a insegurança”. O realizador compreendeu bem essa lição. A sua personagem, não.

Jay Kelly encarna o que o sociólogo francês Edgar Morin definiu como persona: a sua imagem é um signo de esplendor. O mercado cinematográfico já não é o mesmo: achatou-se para dar lugar a filmes cada vez mais palavrosos, moldados para os streamings, esse motel platónico que pagamos mensalmente como uma renda e frequentamos apenas em modo digital. O audiovisual de ambição grandiosa parece hoje condenado à História. Não por acaso, a longa-metragem de Baumbach – ela própria feita para uma plataforma, a Netflix – define o cinema como resquício de memória, como vestígio. Há muitas reminiscências de Jay espalhadas por aí, mas ele já não se interessa em gerar novos registos de si. A sua crise nasce de uma carência de segurança (essa mesma que Plath rejeitava), expressa na necessidade de repetir incessantemente os takes, na esperança de alcançar uma versão de si que nunca chega. Mais ainda: Jay sente que o rótulo de “esplêndido” que a profissão lhe conferiu superou aquilo que realmente é. Já não se sente à vontade em ser definido pelo que faz, ou pelo que possui. O que lhe falta é o que mais lhe dói.

Vencedor de um Óscar (por Syriana) e respeitado enquanto realizador por Good Night, and Good Luck – estreado em Veneza há 20 anos – George Clooney foi escolhido para interpretar Jay tanto pela sua beleza apolínea como pelo estatuto de artista politizado do actual Panteão hollywoodiano, crítico feroz de Donald Trump. Há muito que não assina um sucesso, seja como ator, seja como realizador. Ainda assim, continua gigante. Criou um passado de êxitos desde From Dusk Till Dawn (1996), que explodiu nas bilheteiras, e consolidou fortuna e prestígio como Danny Ocean, o ladrão de casaca da saga Ocean’s Eleven (2001-2007), de Steven Soderbergh. Clooney é, em si mesmo, o símbolo de um cinema de prestígio que, de quando em quando, ainda encontra espaço.

Essa natureza fica evidente quando, numa viagem de comboio pela Itália, em busca de se manter próximo da filha mais nova, Jay abre frestas da sua angústia ao agente, Ron, um serviçal bovino esplendidamente interpretado por Adam Sandler, na fronteira entre drama e comédia. Sandler tem verdadeiras joias no currículo (Punch-Drunk Love, 50 First Dates, Uncut Gems) e foi, de 1998 a 2012, imbatível como o comediante mais rentável das salas de cinema norte-americanas, retomando depois esse estatuto ao migrar para a Netflix, onde reina filme após filme. O prestígio de Clooney junto da crítica sempre foi elevado; já o de Sandler (apesar de ser um génio da gargalhada) nunca atingiu o mesmo patamar. Vê-los juntos, num contexto de angústia e medo face à própria atividade artística, soa a paradoxo. Um paradoxo belíssimo. É o David da artesania autoral lado a lado com o Golias das salas cheias. E ambos se ajudam, assegurando a Baumbach um grande filme.

Ron adora Jay, mas a amizade é mediada por percentagens de lucro. Nesse aspeto, o tema da inquietação financeira — caro a Baumbach desde The Squid and the Whale —, pensado a partir do desarranjo afectivo que o dinheiro gera, materializa-se como um dos pontos centrais de debate em Jay Kelly. O serviçal que mantém o “Clark Gable dos anos 2020” em atividade achatou-se na sua obediência cega. Perdeu um amor (Laura Dern) e pode perder a família. Mais do que isso, perde a certeza de ser eficaz. Enquanto Jay cresce, na busca pela serenidade, através de um reencontro com o pai (Stacy Keach, em grande forma), Ron afunda-se — mas oferece a Sandler uma das suas prestações mais intensas.

O desempenho de Sandler com Baumbach em The Meyerowitz Stories (New and Selected) já tinha sido dos mais possantes. Aqui, porém, o ator põe de parte o “Sandler habitual” e expõe fragilidades, iluminadas pela fotografia apolínea de Linus Sandgren. Os seus enquadramentos são essenciais para que Jay Kelly contextualize um ideal de “belo” perdido pelo desgaste, pelo excesso dos holofotes e pela falta de atenção aos pequenos gestos. O afago de Jay a Ron é um desses momentos. O sorriso cúmplice entre ambos perde força ao longo da narrativa, mas, enquanto se mantém vivo no ecrã, vemos dois grandes arlequins (Clooney e Sandler) a combinarem extremos que pareciam inconciliáveis. Essa ligação prova que, a partir de um bom argumento — como este, que Baumbach escreveu em parceria com Emily Mortimer —, não há “The End” para os bons filmes.

Aplaudido na mostra Perlak de San Sebastián, Jay Kelly é dos que ficam.

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Rodrigo Fonseca
jay-kelly-para-o-bom-cinema-nao-ha-the-endO desempenho de Sandler com Baumbach em The Meyerowitz Stories (New and Selected) já tinha sido dos mais possantes. Aqui, porém, o ator põe de parte o “Sandler habitual” e expõe fragilidades, iluminadas pela fotografia apolínea de Linus Sandgren. Os seus enquadramentos são essenciais para que Jay Kelly contextualize um ideal de “belo” perdido pelo desgaste, pelo excesso dos holofotes e pela falta de atenção aos pequenos gestos.