Poucos arquétipos geram tanta aversão nos festivais de cinema como o do “herói”. Quando se trata do chamado “herói do rendimento” — conceito nascido na literatura do século XIX e reatualizado em dramas políticos, como os de Ken Loach, centrados nas lutas de classes — ainda há alguma condescendência, justificada pelo valor ético e pela força política de obras de autores como os irmãos Taviani, Elio Petri ou Stéphane Brizé. Já o herói que se sacrifica por altruísmo e se torna modelo de conduta… esse, sim, é visto com desdém. Tolera-se, quando muito, o “anti-herói”: figura que percorre o seu caminho tortuoso, com ocasionais gestos de empatia.
É entre estes dois formatos dramatúrgicos que se inscreve a obra engenhosa de Edward Berger, cineasta suíço de origem germânica, que não hesita em recorrer a recursos tecnológicos habitualmente afastados de quem procura afirmar-se como autor. Berger consegue agradar à indústria — incluindo em termos de bilheteira — sem abdicar de uma dimensão profundamente humana, entre a dor e o júbilo, que marca as suas histórias. Ballad of a Small Player talvez seja o filme mais “de festival” da sua carreira, com Colin Farrell num registo heroico que remete para David Niven.
Com All Quiet on the Western Front (2022), realizado para a Netflix, conquistou o primeiro Óscar para a plataforma. No currículo já contava com o agridoce Jack, candidato ao Urso de Ouro em 2014, e alguma experiência em televisão. Mostrou ter mão segura na adaptação literária ao trazer para os anos 2020 a prosa de Erich Maria Remarque (1898-1970) sobre a Primeira Guerra Mundial, atualizando não apenas a linguagem cinematográfica da reconstituição histórica, mas também o ethos de uma Alemanha em crise. Mais tarde, com Conclave, inspirado no best-seller de Robert Harris, transformou uma produção de 20 milhões de dólares num sucesso seis vezes maior, apoiado num elenco em estado de graça.
Agora, em competição pela Concha de Ouro em San Sebastián, Berger regressa ao território da adaptação literária, desta vez a partir de um romance de Lawrence Osborne, para compor um verdadeiro caleidoscópio cinematográfico.
Há neste thriller bem-humorado (mas feérico, de fazer subir a pressão arterial) algo que falta a boa parte dos concorrentes de Donostia 2025 – e quiçá de sempre – apesar das várias narrativas de vulto da sua 73.ª edição: uma personagem maior do que a trama que a sustenta. Lord Doyle é um daqueles tipos que voltam connosco para casa, no autocarro, quando a sua aventura audiovisual se encerra. Colin Farrell (numa fase profissional luminosa, a destacar as séries Pinguim, da HBO Max, e Sugar, da Apple) tem grande responsabilidade na química que este malandro de araque transporta. Só que é Berger quem faz o mundo ao redor da figura tão interessante ao ponto de justificar a univocidade do seu desarranjo.
Como o realizador parece ser fã da Nova Hollywood, com muito de All the President’s Men (1976) em Conclave, o thriller desse mesmo ano supracitado, The Killing of a Chinese Bookie, de John Cassavetes (1929-1989), surge como a primeira referência cinéfila diante do fluxo cálido de Balada de um Jogador. Esse é o título em português da fita, atribuído pela Netflix. Tal como nesse filme de culto com Ben Gazzara (1930-2012), sobre o apostador Cosmo Vittelli, a narrativa em que Lord Doyle se afoga é definida pelo carteado, pelos hormónios que a compulsão do jogo desperta. A ludopatia é a sua desgraça, mas o filme não chora essa mágoa. Endividado até à espinha, este aristocrata de fachada está no fim, mas deseja sair de cena de cabeça erguida.
Com credores no seu encalço, Lord Doyle esconde-se em Macau, passando os dias e as noites nos casinos, a beber vodka e a jogar os trocos que lhe restam. Uma ajuda da misteriosa Dao Ming (Fala Chen), funcionária da casa de jogo que mais frequenta, há de reacender instintos que ele já não ativava. No entanto, cada passo seu é seguido por Cynthia Blithe, uma investigadora privada (interpretada por uma Tilda Swinton comedida, mais afetuosa), pronta a exigir-lhe os valores em dívida. Embora os caminhos pareçam fechados, numa ciranda de perigos que a direção de fotografia (exuberante) de James Friend faz parecer das mais dionisíacas, Doyle não desiste do verbo “tentar”. Carrega um sentimento crepuscular no coração, também por sentir que, no território chinês de influência lusa que tanto adora, é já uma relíquia de um passado de glórias condenado à extinção. Com as suas luvas extravagantes e os ternos alinhados, surge desterritorializado no Tempo de um mundo moralista.
Ir contra a moral capitalista, recorrendo à sua habilidade para domar a sorte, faz dele um vingador sem causa… um vagabundo na alta roda… como Niven fazia. Colin herdou essa tradição e leva-a adiante com brios. A montagem, por vezes, tropeça na sucessão de sequências de ases, valetes, damas e reis, mas, no cômputo geral, a dimensão de espetáculo de Berger está presente, firme e forte. Perto do que se vê nas produções Netflix, Ballad of a Small Player é um oásis para os olhos.



















