Ave rara em qualquer grande festival da Europa, à exceção das ações promocionais de Tom Cruise em Cannes ou da sazonal frequência de iguarias sul-coreanas, como Time To Hunt (2020), na Berlinale, o cinema de ação é um género que dificilmente disputa prémios — pelo menos aqueles que não sejam os Óscares de montagem ou de edição de som. Tem poucas hipóteses de disputar uma Palma de Ouro (como aconteceu há dez anos com Sicario) ou um Leão de Ouro (ambicionado duas décadas atrás por Lady Vengeance). No caso de San Sebastián, contudo, os thrillers são bem-vindos, sobretudo se feitos “em casa”, em Espanha, seja na linha do terror (como La Abuela, de Paco Plaza), seja nas veredas do suspense policial (caso de Que Dios Nos Perdone, de Rodrigo Sorogoyen). Este ano, a adrenalina encontrou espaço (nobre) na disputa pelo troféu central do evento basco, a Concha de Ouro, através de uma narrativa avassaladora.

É uma narrativa que começa com ares de Le Grand Bleu (a joia submarina de Luc Besson, de 1988), toma um atalho de nitroglicerina digno de Le Salaire De La Peur (1953) e termina como uma espécie de fita de gangsters, numa espiral de erros incessantes, evocando On The Waterfront (Há Lodo no Cais, em Portugal / Sindicato de Ladrões, no Brasil), de 1954, na sua visão determinista. Todas estas referências surgem naturalmente na mente da plateia ao ver Los Tigres, que apesar de dialogar com tantos sucessos do passado, é absolutamente original na sua trama, nos diálogos e, sobretudo, na condução de uma cartilha guiada por exércitos solitários. Neste caso, uma tropa de dois… irmã e irmão.

O andaluz Albert Rodríguez, que assina a realização, já tinha flertado com os heist movies em El Hombre De Las Mil Caras (2016) e dialogado com o drama carcerário em Modelo 77, título de abertura de Donostia em 2022. Ambos engenhosos, mas sem a ambição de longa-metragem que Los Tigres assume — e sustenta com segurança. Não há pancadarias (à exceção de uma queda de braço), nem tiroteios, mas há perseguições, armas em punho, tensão nas profundezas do mar e a sensação de que Estrella e o irmão Antonio podem morrer a qualquer momento. Essa sensação nasce da montagem de Jose Moyano, que revela uma fluidez pouco comum no grande cinema europeu. A sua edição é surpreendente até para os padrões médios de Hollywood. Consegue que cada vértice da vida das personagens centrais pareça desencontrado, sem equilíbrio, emulando a ausência de um pai que os treinou nas artes do mergulho, mas que lhes impunha uma fraternidade competitiva. Um relógio de mergulhador é o fetiche desse passado familiar que ainda borbulha mágoas.

Duas estrelas ibéricas, cuja potência para o trágico não vacila, transformaram este action movie parcialmente subaquático num ensaio crepuscular sobre afogamentos inevitáveis: Bárbara Lennie e Antonio de la Torre. Ela é de Madrid; ele de Málaga. Juntos, no grande ecrã, dão corpo ao que resta de um clã de expedicionários marinhos forçados a flertar com o crime para saldar uma dívida. Sempre se equivaleram nas destrezas do mergulho. Um superava o outro de vez em quando. Estrella sofre de uma deficiência auditiva, expressa no filme através de um jogo sinestésico de ruídos. António, a braços com problemas familiares com a mãe da sua filha, desenvolve um problema cardíaco letal. Mas as dificuldades deles vão muito além das limitações físicas: a necessidade de se envolverem num escambo de cocaína — da mais cara, transportada debaixo de água — empurra-os para um tanque de tubarões… daqueles que usam pólvora e não têm medo de disparar.

Não parece haver saída para Estrella e António, mas os laços de sangue que os unem resistem, abrindo espaço para um guião fora das convenções anti-heróicas, no qual o que parece moralmente errado se torna certo… e o que soa moralmente certo se revela errado. Nesta torção de valores e arquétipos (sobretudo os do cinema pop), Alberto Rodríguez navega por um oceano agitado que refresca os códigos da ação e alimenta as esperanças num género tantas vezes dado como condenado pela correção política. A direção de fotografia de Pau Esteve assegura uma elegância invulgar para este tipo de filme, eficaz sobretudo nas múltiplas sequências em que o risco se dissolve sob litros e litros de incerteza.

Temos já o primeiro grande achado de San Sebastián 2025.

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