Dominga Sotomayor inscreveu o seu nome no rol das estrelas autorais latino-americanas ao vencer o prémio de Melhor Realização em Locarno, em 2018, com Tarde para Morrer Jovem, com o qual concorreu ao Leopardo de Ouro em representação do Chile, onde nasceu, em 1986. O seu país tem sido uma fonte intermitente de talentos e surpresas no eixo sul-americano, ao lado do Brasil e da hoje fragilizada (por culpa de Milei) Argentina, com a Colômbia e o Peru a jogarem pelos flancos do relvado cinematográfico mundial. O cinema que realiza aposta em tramas de implosão. Há personagens com os pés bem assentes no chão que, em reviravoltas inesperadas, saem da sua órbita — ainda que nenhum ponto da sua dramaturgia enverede por trilhos bruscos ou perigos anunciados. Assim aconteceu também no seu estonteante curta-metragem La Isla (realizado em parceria com Katarzyna Klimkiewicz, em 2013) e volta a acontecer agora em Limpia, com o qual inaugurou a secção Horizontes Latinos de San Sebastián na passada sexta-feira. No próximo dia 10, a produção chegará à Netflix, embora esteja a léguas da formatação típica dos serviços de streaming.

Inspirado no best-seller de Alia Trabucco, Limpia tem um tom doce, lembrando um filme de matiné na forma como olha para a relação entre adultos e crianças, mas está catalogado nas listas de longas-metragens obrigatórias deste fim de ano como um thriller psicológico. Trata-se, no entanto, de uma classificação oportunista, que não traduz bem a diversidade de afluentes que Dominga explora — e bem. O suspense ronda a narrativa numa sequência em que um cão morde e num desfecho que evoca Parasitas (Palma de Ouro em 2019), de Bong Joon Ho. O universo laboral de empregados domésticos numa casa de classe alta é o elo mais imediato entre a crónica social do filme de culto sul-coreano, vencedor de quatro Óscares, e a radiografia da rotina de uma ama que deseja encontrar prazer enquanto cuida de uma menina.

Estela (papel que poderá transformar María Paz Grandjean numa atriz de primeira grandeza) ganha a vida a correr atrás de Julia (Rosa Puga Vittini), uma pestinha de seis anos, filha de um casal abastado. O patrão, médico, arranja sempre uma desculpa humanista, ancorada no seu juramento, para justificar as ausências e forçar Estela a permanecer em casa, adiando assim os seus próprios planos. A maior angústia de Estela é a preocupação constante com a mãe idosa, deixada numa localidade distante para que pudesse trabalhar numa zona metropolitana. Apesar dessa inquietação, a devoção que dedica a Julia vai muito além do que o salário justifica. Soma-se ainda a alegria proporcionada por um cão fujão, Daddú, que insiste em aparecer no quintal dos seus patrões. E, como se não bastassem esses entorpecentes lícitos e afetuosos, Estela passa a ser desejada – e com contornos de amor – por um funcionário com ares de galã de uma bomba de gasolina.

Em vários momentos, a montagem (nada óbvia) de Federico Rotstein faz acreditar que algo trágico está prestes a acontecer a Estela, ou pior ainda, a Julia. O namoro que a protagonista inicia parece ser um íman de problemas, até que vamos percebendo, pouco a pouco, que o seu pretendente é alguém da melhor índole. Dominga não demonstra interesse no inusitado: procura o quotidiano. Dialoga, em certa medida, com o sucesso brasileiro Que Horas Ela Volta? (2015), de Anna Muylaert, no seu ímpeto marxista de luta de classes, e observa, à distância, circunstâncias semelhantes às de Camarera de Piso (2022), de Lucrecia Martel, sobretudo no clímax. Reserva um espaço para deixar a ficção esgueirar-se pelo território do cinema de género, mas ganha força sobretudo quando cartografa uma América Latina marcada por abusos laborais, justificados por uma pirâmide social assimétrica, em que a desigualdade convida à exploração, sob a bênção do Capitalismo. Esse tema costuma gerar um cinema com ar panfletário. Com Dominga, o tema transforma-se em espetáculo… poético, que enriquece a filmografia chilena.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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