
Registo que passa longe das técnicas de telenovela pelas quais a dramaturgia brasileira é conhecida fora das suas fronteiras, assim como também evita a abordagem formatada com que algumas produtoras privadas têm viabilizado comercialmente o cinema do país. Mas, ainda assim, herda destes exemplares a parte positiva – a desenvoltura dos atores e a acessibilidade geral da proposta.
A realizadora Anna Muylaert traça um perfil da sociedade brasileira a partir de uma história com uma perspetiva essencialmente feminina, situando-a num ambiente fechado (a casa de uma família de classe média alta de São Paulo) onde fixa os tipos das velhas e novas mulheres do Brasil. Neste microcosmo há a criada omnipresente (Regina Casé), que vive para o trabalho e sobre a qual gira toda a dinâmica caseira, a “patroa” (Karine Telles), uma mulher contemporânea e empreendedora, e a novíssima geração através da filha recém-chegada da empregada, Jéssica (Camilia Márdila), que, não obstante as origens pobres, busca através do mérito entrar na universidade. A maternidade dá nome ao filme (a criança que pergunta pela mãe) e fornece o enquadramento para os dramas das três personagens.
A partir disto, há um enfoque quase “marxista” na maneira como, desta relação de fundo económico, de trabalho, cristaliza-se uma estrutura de organização social senhorial: pouco há de legislação trabalhista moderna na rotina da empregada que, ao mesmo tempo, tem uma noção que se diria arcaica de submissão. Mas é antiquada somente na aparência: é nesta relação entre mandantes e comandados que o filme encontra a sua universalidade e torna-se facilmente compreensível em qualquer lugar.
Para mostrar as transformações ocorridas com a chegada de Jéssica, Muylaert opta por um registo subtil o suficiente para evitar as facilidades, os excessos sentimentais e as lamechices brejeiras das “soap operas“. Jéssica vai dinamitando de forma quase desinteressada, a um passo de cinismo, o cosmos fechado que encontra, enquanto o naturalismo das interpretações presentes em obras como O Som ao Redor contribui para acentuar o carácter indie da proposta.
O melhor: a forma subtil como entrelaça os destinos das protagonistas.
O pior: algum esquematismo na forma cristaliza certos estereótipos.

