As tranças de cabelo sempre tiveram um papel importante na história, da mitologia (basta lembrar Sansão) ao funcionamento de algumas tribos no continente africano (como um símbolo de posição social ou de identidade). Porém, na “Alișveriș” do romeno Vasile Todinca, que depois de estrear na Semana da Crítica em Cannes, conquistou o Grande Prémio do Curtas Vila do Conde, elas são o último bastião de troca comercial para uma mulher desempregada tentar pagar a sua galopante renda da casa, movida, diz o neoliberalismo, pela mão invisível do “preço do mercado”.
Tal como muito do cinema de Radu Jude, que frequentemente aborda os disparates e exageros do capitalismo selvagem, dos signos que entopem a publicidade nas ruas, internet e smartphones (Bad Luck Banging or Loony Porn; Do Not Expect Too Much from the End of the World) como aqueles que são excluídos por e dele, tendo em “Kontinental 25” o cineasta tocado mesmo diretamente no tópico da crise habitacional e da turistificação, Vasile Todinca faz uma leitura política sarcástica movendo-se pelo drama de uma mulher que passa um dia inteiro à procura de alguém que possa pesar a trança de cabelo que tem para vender. Descobrindo que esta é pouco valiosa, ela terá de cortar aquela que também ostenta, salvando-se assim de ficar sem a casa.
Semelhante nas bicadas políticas, sociais e económicas, na acidez e urgência, mas diferente no arranjo estético que dá ao seu “Alișveriș”, via cores saturadas, contrastes de sombras e múltiplas formas de imagens (inclusive de videovigilância) das múltiplas caras do capitalismo, o jovem cineasta romeno entrega assim ao espectador uma obra carregada de contemporaneidade e uma relevância que vai bem além da Roménia (veja-se Portugal e a sua própria crise habitacional). E quanto ao seu título, Todinca vai buscar a palavra emprestada à língua turca otomana e que significa “comércio, troca”, o que faz todo o sentido perante tudo o que vimos com precisão em apenas 15 minutos.




















