Nascido como projeto ainda antes da invasão em larga escala da Rússia à Ucrânia (2022-presente), como nos explicou a produtora do filme, a primeira ideia de “Divia” era fazer um filme sobre a humanidade e como esta destroi a natureza. Depois da invasão, o projeto “mudou” para “a natureza antes da guerra, durante a guerra, e na sua recuperação”. 

Com centenas de horas registadas (130), criteriosamente depois montadas, este terceiro documentário do diretor ucraniano Dmytro Hreshko, “Divia”, estreou mundialmente na Competição Globo de Cristal de Karlovy Vary, trazendo até ao espectador imagens impressionantes da ação humana mais extrema, a guerra, perante a paisagem e o mundo natural, vegetal e animal, que invariavelmente acabam por ser danos coletarais do conflito. Por isso mesmo, vemos florestas queimadas, cadáveres de animais e campos destruídos, e depois a sua “reconstrução” natural, com animais por vezes a pisarem o metal, como novos elementos da paisagem.

Divia” podia ser perfeitamente vista como uma sinfonia entre a destruição e o renascimento, destacando-se a cinematografia de Dmytro Hreshko e Volodymyr Usyk, além de um criterioso trabalho sonoro (muitas vezes opressivo) de Vasyl Yatsushenko e Mykhailo Zakutskyi, a que banda-sonora de Sam Slater (que também foi o responsável da banda-sonora de “2000 Metros para Andriivka”) se impõe entre o épico e o distorcido de explosões eletrónicas. Por entre filmagens aéreas, derivadas de drones que sobrevoam o território ucraniano, a que se juntam planos de conjunto, médios, closes e de detalhe no terreno, através de câmaras estáticas ou movimento, o foco nunca é propriamente a presença física humana em cena, mas a sua onipresença e onipotência é visível, seja via o armamento bélico que invadiu a paisagem natural, seja através de falas ininteligíveis e alguns gritos que conectamos a soldados em combate, aos socorristas e ambientalistas que tentam minorar os efeitos da guerra, e as marcas na terra que, ora a podem tornar inutilizável (mísseis), ou deixar sobre risco durante muito tempo (minas). O mar também não é esquecido, e aos vários animais mortos que identificamos em terra, acrescentam-se golfinhos e muitos outros peixes, tudo formas de vida condicionadas desde sempre à ação humana e ao humanismo (filosofia que exalta o ser humano), com ou sem guerra.

Claro está que pela sua forma, impacto e um silêncio musicado, muitos relembram o ensaio em imagens e som sobre o estado da civilização americana a que Godfrey Reggio chamou “Koyaanisqatsi”, mas o objeto de Dmytro Hreshko tem uma força particular e única, pois embora sejamos localizados na Ucrânia, a ausência dos símbolos que definem o país tornam este um objeto ao seu jeito universal, mostrando e obliterando o eterno conflito entre o homem e natureza e o homem e o homem.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
divia-sinfonia-da-destruicao-e-reconstrucao-da-naturezaPor entre filmagens aéreas, derivadas de drones que sobrevoam o território ucraniano, a que se juntam planos de conjunto, médios, closes e de detalhe no terreno, através de câmaras estáticas ou movimento, o foco nunca é propriamente a presença física humana em cena, mas a sua onipresença e onipotência é visível