Num dos paineis de indústria mais curiosos (e interessantes) do Sheffield DocFest, no passado dia 19 de junho, discutiu-se a nova leva de cinema documental vindo da Ucrânia no pós invasão russa. Com o título bem explícito “There are too many Ukrainian films” – NO THERE ARE NOT” (“Há muitos filmes ucranianos” – NÃO, NÃO HÁ”), a conversa, onde se encontrava Mstyslav Chernov (realizador de “20 dias em Mariupol” e “2.000 metros para Andriivka”), serviu como base para mostrar como o cinema é uma arma contra a desinformação russa e como a permanência do tema da guerra nos festivais internacionais mantém na mente das pessoas dos mais variados países as consequências sérias para a nação ucraniana, ameaçada de extinção. 

Há três anos que a nova ofensiva russa decorre (a guerra em si, começou verdadeiramente em 2014, com a anexação da Crimeia por parte dos Russos) e, ao longo desse período, têm sido exibidos, um pouco por todo o mundo, vários filmes que abordam o tema, seja do ponto de vista militar, do combate direto, como este “2.000 metros para Andriivka”, seja como a população e os combatentes têm reagido ao conflito, na forma da “psicologia de uma nação e das suas gentes”, como mostraram os impressionantes “When Spring Came to Bucha” (2022), “Butterfly Vision”, “Intercepted” (2024), “A Bit of a Stranger” (2024), “Timestamped” (2025) ou ainda “Time to the Target” (2025) e “Militantropos” (2025), só para citar alguns de dezenas de filmes que se focam no conflito.

Ainda assim, e mesmo com a dureza intrínseca a que o tema nos submete, em qualquer dos filmes apresentados, “2.000 metros para Andriivka” é particularmente complexo de se assistir, pois é um objeto que acompanha um batalhão a tentar conquistar um lugarejo estrategicamente crucial para o conflito, Andriivka, assistindo o espectador aos intensos combates para esse objetivo. Com diversas particularidades geográficas, a área do conflito resume-se a uma mini floresta onde, entrincheirados, os soldados russos tentam travar o avanço das tropas ucranianas, onde finalmente dão de caras com a aldeia, a qual, nos dias áureos, não ultrapassava os 80 habitantes.

Com diversas particularidades geográficas, a área do conflito resume-se a uma mini floresta onde, entrincheirados, os soldados russos tentam travar o avanço das tropas ucranianas

As filmagens decorrem no estilo de reportagem jornalística, longe de qualquer ensaio de propaganda ou elevação heroica, mas perto de análise ao tom brutal, visceral e também surreal da guerra (um soldado russo não se cansa de dizer que está ali apenas porque o mandaram para a guerra, levantando a velha questão da Experiência de Milgram). Dada a natureza e forma do filme, Chernov recorre muitas vezes a câmaras enfiadas nas vestes dos combatentes, dando ao espectador uma estranha sensação POV de videojogo, mas que sabemos que é real, demasiado real e duro de assistir. Na verdade, o que vemos tem um impacto semelhante ao início de um dos filmes mais marcantes sobre a guerra, “O Resgate do Soldado Ryan“, mas aqui não temos atores a fazerem um papel, temos gente real, soldados, a combater outros soldados, por entre tiros, granadas, chuvas da artilharia, drones suicidas e corpos e prisioneiros que se amontoam. Por isso mesmo, esse realismo – a dita verdade – deixa-nos de queixo caído (e alma angustiada) durante 1h45 minutos de filme, num filme criteriosamente montado por tomos à medida que os soldados ucranianos avançam, recuam e tombam no terreno (2000 metros para Andriivka; 1000 metros para Andriivka; e por aí fora).

Chernov recorre muitas vezes a câmaras enfiadas nas vestes dos combatentes, dando ao espectador uma estranha sensação POV de videojogo

Assim, Mstyslav Chernov, com os seus dois documentários sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia, já se consolidou como um dos cronistas mais impressionantes da guerra moderna, não se imiscuindo de uma narração sóbria que evoca, mas não impõe, a bravura, tudo num filme que não esquece de visitar o último destino dos soldados, ou seja, os caixões, muitas vezes enterrados a mais de 900 km onde a última batalha decorreu.

Por estas razões, 2.000 metros para Andriivka” é um dos registos mais impressionantes da história do cinema documental e, também, do jornalismo. Daqueles objetos que daqui a centenas de anos vão ser olhados como fonte para recontar e reescrever a história de uma guerra que parece não ter um fim à vista a curto-prazo.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
mstyslav-chernov-impressiona-com-2-000-metros-para-andriivka Mstyslav Chernov, com os seus dois documentários sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia, já se consolidou como um dos cronistas mais impressionantes da guerra moderna