É difícil não pensar em “Dreams” de Michel Franco ao assistir a “Don’t Call Me Mama”, já que ambos os filmes abordam paixões de mulheres de meia idade que se envolvem com homens mais novos, os quais vivem permanentemente no receio de serem deportados. E se no filme protagonizado por Jessica Chastain temos um jovem dançarino mexicano a fechar um par amoroso, nesta obra norueguesa, acabada de estrear no Festival de Karlovy Vary, na competição ao Globo de Cristal, temos um refugiado sírio que procura asilo.

Ambos os filmes seguem também a mesma linhagem no que toca a relações de poder, com as mulheres, liberais assumidas, a derradeiramente transformarem-se em bestas selvagens vingativas após a rejeição, soltando uma fúria avassaladora que põe em risco a permanência dos emigrantes no país (EUA em “Dreams”; Noruega em “Don’t Call Me Mama”. Outra similaridade é que ambos os migrantes possuem  talentos (a dança em “Dreams”; a escrita no filme norueguês) que aproximam o casal durante a relação. A única verdadeira separação entre os dois filmes é o estado civil das mulheres. Chastain não tem companheiro, mas a sua posição hierárquica de riqueza apenas permite um certo tipo de pretendentes. Já Eva (Pia Tjelta) é casada com o presidente da câmara (Kristoffer Joner) da cidade onde vive. O desgaste do casamento é óbvio e o desejo sexual foi-se perdendo, sabemos depois, por causa de uma traição do marido com uma colega do partido. Quando um jovem de 18 anos, Amir (Tarek Zayat), de origem síria, chega à comunidade, Eva vai se apaixonar por ele e sentir-se novamente viva, demonstrando isso num misto de cenas de sexo escaldante e leituras de poesia aconchegantes. Se ambos escondem o “affair”, Amir tem algo mais a esconder, que será aproveitado por Eva quando as coisas começarem a descambar. E quando começam, cai o céu e o inferno na Terra.

Poderíamos ainda falar de “Rainha de Copas” e até o também recente “BabyGirl” como filmes que, de alguma maneira, abordam as temáticas e constroem uma atmosfera à que “Don’t Call Me Mama” evoca, mas todos os filmes mencionados têm particularidades muito próprias e enraizamentos locais que lhes dão alguma unicidade, no meio de uma história similar: um boy meets girl que dá para o torto com uma escalada absurda de eventos a conduzirem à tragédia. Na fonte desse descalabro está a diferença de idades e, também, as diferentes relações de poder, com o “nós” e o “eles”, típico das discussões sobre emigração, a estarem presentes, mesmo que os tais “nós” demonstrem filantropia e um estado (alegadamente) avançado de liberalismo e consciência de classe. Errado! Quando a enorme intimidade se transforma em rejeição, a verdadeira essência das pessoas surge e a vingança é um prato que se serve bem gelado. Nina Knag essencialmente consegue mostrar isso, um altruísmo-mor, desde que seja nos seus termos. Essa postura não é apenas posta em cima da mesa na personagem de Eva, mas igualmente na do marido e político, que se mostra incansável em aproveitar a presença do refugiado na sua casa para fazer campanha política no Instagram.

Sem trazer nada de novo, mas sublinhando como as diferenças de poder se manifestam a qualquer momento, “Don’t Call Me Mama” é assim um filme que merece uma olhadela.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
dont-call-me-mama-amor-rejeicao-e-vingancaÉ difícil não pensar em “Dreams” de Michel Franco ao assistir a “Don't Call Me Mama”, já que ambos os filmes abordam paixões de mulheres de meia idade que se envolvem com homens mais novos, os quais vivem permanentemente no receio de serem deportados.