Facilmente um dos nomes do cinema mundial que se arrisca a cada filme a fazer análises sociológicas e políticas a partir de vividos e sofridos dramas humanos sem interesse no exploratório, Michel Franco chega este ano à Berlinale com mais relevância que nunca, não fosse Trump estar no poder e a sua agenda de deportação em massa estivesse em marcha.

Mas aquilo que poderia ser mais uma incursão repetitiva e derivativa temática no reino dos filmes de migrantes perante as estruturas de poder e hierarquia inerentes ao racismo (agora sob a forma encapotada de um tal de culturalismo), ganha mais camadas e refrescantes observações em “Dreams”, estreado na Berlinale com Jessica Chastain no epicentro da audácia e despeito. É ela, filha de um grande empresário, que lidera a sua fundação filantropa, e que demonstra que, por mais que se fale em igualdade e até equidade, um migrante, ou seja, o “eles”, nunca será visto como um “nós”. 

Iniciando uma relação clandestina com um bailarino mexicano mais novo que ela, Jennifer McCarthy (Chastain) entrega-se sexualmente e emocionalmente ao amante, por esta ordem, mas nunca permite, verdadeiramente, a hipótese dele fazer parte do seu clã. Viajando entre a Cidade do México e São Francisco, acompanhamos o calvário de Fernando (Isaac Hernández), que viaja para a cidade americana não à procura de uma vida melhor, mas sim a mulher por quem se apaixonou numa das interações ligadas ao emprego dela. É já nos EUA, meses depois de viver escondido com a sua paixão, que ele vai entender que é um objeto ao seu dispor, num paralelismo funcional com a afirmação política tantas vezes repetida que não aceitamos todos os migrantes, mas aqueles que nos possam servir e ajudar a crescer economicamente.

Franco filma corpos dominadores no seio de uma casa, mas submissos fora dela, por consequência da hierarquização da sociedade a partir do que chamamos de realidades intersubjetivas (como as fronteiras) e heranças coloniais. E com a sua crueza habitual, onde não foge ao erótico, via planos corporais e interações sexualmente agressivas, o cineasta intrinca uma narrativa num jogo de poder, “em terreno inclinado”, que parte de uma história pessoal para falar do coletivo e universal.

Já Chastain, sem qualquer receio de chocar com a sua fogosidade na cama e frieza calculista fora dela, numa atitude de clara possessividade de reagir mal à rejeição, entrega uma atuação poderosa e até inesquecível, convenha-se, sendo acompanhada por um Isaac Hernández que entre o romantismo ingénuo, os sonhos e ilusões, ainda que mantenha uma firmeza e retidão na personalidade, vai-se transformando numa outra pessoa no meio de um jogo que está destinado a perder.

No final, eis mais um filme de Michel Franco onde a crueza e audácia explode no ecrã sem meias palavras e necessidade de atos vazios, mostrando um mundo que frequentemente evoca palavras de pertinência política, social e humana, mas nas ações mostra-se incapaz de transformar o “eles” em “nós”.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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