Existem muitos diálogos bons em “Superman”, de James Gunn, que se esquiva de inevitáveis comparações com o clássico homónimo de Richard Donner (1930-2021) sobre o herói, de 1978, sobretudo elaa aposta numa discussão sobre (ou melhor, contra) a xenofobia, em sintonia com o zeitgeist da Era Trump. Falta uma homilia, entretanto: “No dia mais claro, na noite mais densa, o mal sucumbirá ante a minha presença. Aquele que venera o mal há de penar, quando o poder do Lanterna Verde enfrentar”. Decorada por nerds, essa frase é o lema de Guy Gardner, personagem de luxo chamada para a superprodução de US$ 220 milhões que Gunn lança mundialmente este fim de semana. Nathan Fillion é quem vive essa figura e, por um triz, a longa-metragem não passa a ser dele.
Nos EUA, à espera de “Superman” estrear, a DC Comics, editora por trás da publicação do último (ou quase) cidadão do planeta Krypton, investe em Gardner como destaque do n° 5 da revista mensal “Green Lantern Corps”. Alimenta com isso a fama dessa figura que usa um anel capaz de solidificar a luz verde. Essa habilidade ajuda um pouco o titular da fita. Não tenham dúvidas de que David Corenswet, estrela que vive o Homem de Aço na releitura de Gunn, desempenha bem o papel, sobretudo por fazê-lo com suavidade. Nota-se uma toada mais reflexiva, quase existencialista n sua figura. Só que Gardner quase o ofusca.
Parceiro de Gunn há anos, Fillion enche-se de ironia para viver essa controversa figura, que ganhou fama entre o público leitor em língua portuguesa nos anos 1980, em encadernamentos que saíam em Lisboa e nas extintas revistas “Superamigos” e “Liga da Justiça”, da editora Abril. Caberia a ele ser o primeiro Lanterna Verde da Terra se o piloto de jatos Hal Jordan não tivesse sido localizado antes dele, transformando esse instrutor de crianças numa espécie de interino para usar uma joia que transforma os reles mortais nos Sentinelas Esmeraldas do planeta Oa. Jordan esteve no cinema em 2021, vivido por Ryan Reynolds no destroçado “Green Lantern”, que não é tão mau quanto dizem.
Nas BDs, quando Jordan tem problemas, ele recebe também uma das armas de defesa mais poderosas do universo DC, apesar de levar zero em qualquer avaliação de comportamento e de correção política. O seu temperamento irascível fez dele um ímã de fãs, que pode crescer ao Infinito com a fita de Gunn e com a corrida aos seus almanaques nas bancas, nas livrarias e nos sites.

Gardner foi criado por John Broome e Gil Kane em “Green Lantern (vol. 2)” n° 59, em março de 1968, embora esse ferrabrás tenha sido alterado significativamente na década de 1980 por Steve Englehart e Joe Staton, que o transformaram numa paródia chauvinista de um americano ultra macho. Esse continua a ser o arquétipo da personagem até hoje. Quando Englehart começou a escrever, John Stewart, um Lanterna associado a lutas antirracistas, era a personagem-título. Englehart inicialmente perguntou o que impedia que vários Lanternas Verdes estivessem ativos ao mesmo tempo. Com isso, reformulou Gardner, que ganhou ainda mais adesão (e volume de vendas) ao entrar para a Liga da Justiça Internacional, numa saga de tramas escritas por J.M. DeMatteis e Keith Giffen e ilustradas por Kevin Maguire.
Nos ecrãs, Gardner integra o grupo chamado Gangue da Justiça. Ao seu lado estão a guerreira alada Hawkwoman (Isabela Merced) e o inventor ricaço Mister Terrific (Ed Gathegi, que tem uma impecável atuação). Sem eles e sem o cão Krypto, Kal-El (nome intergalático do Superman) há de ser derrotado por um Lex Luthor enraivecido, interpretado por Nicholas Hoult com uma grandiosidade que há muito não se via no cinema, fora o Henri Ducard de Liam Neeson em “Batman Begins” (2005), lançado por Christopher Nolan.
A única centelha nolaniana do “Superman” de Gunn é a dimensão geopolítica que existe no ódio segregacionista de Lex contra o Homem de Aço. Ele despreza-o por saber que este guardião da Terra é um ET, um visitante do espaço. O Super-Homem simboliza um visigodo na ótica desse César de Coliseu tecnológico (a Luthorcorp) que é Lex. Ali, a narrativa toma vias de ciências políticas que ampliam a força dramatúrgica de um espetáculo de ação frenética. Esse frenesim candidata Gardner a ganhar um filme só para si.
Um clima nostálgico, próximo da banda desenhada da década de 1980, sobretudo a fase de John Byrne na DC, permeia sinestesicamente o “Superman” de Gunn, sobretudo na paleta que dá cor aos enquadramentos da direção de fotografia de Henry Braham. A sua luz permite que a cidade de Metrópolis do filme se aproxime (como nunca se viu) da geografia estruturada por Jerry Siegel (1914-1996) e Joe Shuster (1914-1992), os criadores de Kal-El, em 1938.

















