Considerado um dos mais inflamáveis estudos sobre exclusão social já feitos pelo cinema brasileiro, “O Invasor” começou a ser rodado 25 anos atrás e, em 2001, teve uma estreia consagradora no Festival de Brasília, do qual saiu com a láurea de Melhor Realização. Na sequência, foi para Sundance e de lá saiu com o Latin America Cinema Award. Passou ainda por mostras em Havana e Bogotá. Foi a argamassa de uma produção francesa realizada e estrelada por Roschdy Zem em 2019, “Persona Non Grata”. Agora, por meio da plataforma Filmelier, numa conexão com a Prime Video da Amazon (na internet da América do Sul), essa produção da Drama Filmes, exibida no Panorama da Berlinale de 2002, ganha uma nova montra, agora online, via streaming. Nesse novo espaço, um clássico redefine a sua relevância, inclusive politicamente.
Quando se contabilizam, na história do cinema brasileiro, os tipos que se cristalizaram no imaginário popular, a porção rural de nossa cinematografia ganha de lavada dos filmes urbanos, à força de tipos como Jeca Tatu e Pedro Malazartes (ambos encarnados pelo ator e produtor Amácio Mazzaropi) ou o Augusto Matraga (encarnado por Leonardo Villar, em 1965, e por João Miguel, em 2011). Apesar disso, a cinematografia urbana sul-americana, que tem uma Geni (protagonista de “Toda Nudez Será Castigada”) aqui e um Pixote acolá, ganhou um reforço bem-vindo com a chegada de Anísio, o homem mau de “O Invasor”. O cantor e compositor da banda Titãs, Paulo Miklos, foi o intérprete, e recebeu o Prémio Especial do Júri de Brasília pela sua atuação, numa estreia como ator. Dali, aliás, ele engatou uma vasta trajetória como intérprete, regada de prémios.
O seu jeito caricato, apoiado num olhar aquilino, faz lembrar os velhos vilões que davam dores de cabeça ao detetive Dick Tracy, nas tiras produzidas por Chester Gould. Perto dele, Flattop, Pruneface e qualquer outro bandido das BDs de Tracy parecem menos assustadores do que um bebé de colo. Mas se a conversa entrar banda desenhada adentro, há outra alusão mais interessante a ser feita com a personagem vivida (bem) por Miklos. Há uma célebre sequência na minissérie gráfica “O Cavaleiro das Trevas” (“Batman: The Dark Knight”, 1986) em que o Homem-Morcego, já sexagenário, stressado e cheio de ódio, luta com o Super-Homem, amparado por uma armadura. No meio desse combate, aproveitando-se do facto de o Homem de Aço ter sido atingido por uma flecha de Kryptonite, Batman agarra a garganta do seu (outrora) colega de heroísmo e a aperta. De repente, o defensor de Gotham City começa a sofrer um colapso cardíaco, mas nem a morte o faz desistir de apertar o pescoço do último filho de Krypton. A justificação: “Eu quero que todo o mundo saiba que fui o único homem que te derrotou”, diz Batman, instantes antes do seu batimento cardíaco cessar. É mais ou menos essa a relação de Anísio com a classe média da longa-metragem de Beto Brant: a mão na garganta que agoniza, e até a margem do colapso. No caso, fala-se do colapso social brasileiro, pós Collor de Mello e pós Fernando Henrique Cardoso, anteriores ao primeiro governo de Lula.
A partir de uma sólida armação narrativa oferecida pelo roteirista Marçal Aquino, Brant confirmou na sua terceira longa-metragem toda a expetativa que se formou ao redor do seu nome no fim dos anos 1990, quando o seu trabalho de estreia, “Os Matadores”, começou a rodar os principais festivais brasileiros.
Mais do que a mobilização que criou em torno da possibilidade de se contextualizar sociologicamente a relação entre exclusão e violência, “O Invasor” conseguiu um feito raro: imortalizou uma personagem das selvas de betão/concreto. Um tipo que sintetiza o desgoverno da balança ética nacional. Anísio, um matador, vive dias de monarca quando resolve chantagear os contratantes. Frequenta os apartamentos mais ricos. Apreciam a noite paulistana com a filha da sua vítima. Come, bebe, fuma, toma ácidos, tem sexo… enfim, goza. Goza de todos os prazeres de uma monarquia fugaz, cujo prazo de validade ele, com a esperteza nas ruas, sabe ser curto. Rei morto, rei posto. É a lei da sobrevivência das espécies no poder. Os assassinos empreiteiros não estão livres dessa. Nem o espectador, que é obrigado a conviver com a hipótese de que há um “alien” da periferia, um oitavo passageiro feroz (mais feroz do que aquele ET ácido da Fox, de Ridley Scott), na navilouca chamada classe média. O magma do filme reside exatamente na transcendência da sua condição de conto moral. “O Invasor” – que mais tarde Marçal lançou em forma de romance – aborda o despreparo das camadas sociais que enriqueceram avessas às contradições dos que pegam um meio de transporte cheio, esquivam-se de balas perdidas no caminho de casa e suam a camisa para arcar com o pão, o aluguer, a conta de luz e o que mais houver de obrigações legais a serem quitadas.

Eletrificado pela montagem de Manga Campion, “O Invasor” dá um arrocho na classe média a partir de um maquiavélico engenho discursivo, a partir do qual a plateia deixa-se seduzir por um Nosferatu da “quebradas” (de comunidades ou conjuntos habitacionais de baixos rendimentos), até perceber que as presas mais afiadas e sedentas de sangue não estão na boca do vampiro, e, sim, sob os lábios temerosos do próprio público. Quando cria uma relação especular, mediada pela consciência pesada, o filme de Beto Brant já deixou os seus interlocutores, do lado de lá do grande ecrã, reféns da surpresa, como devem ser as melhores tramas de mistério.
Sem a necessidade de filmar um único tiro disparado, Brant conseguiu realizar um ensaio sobre a genealogia da moral em que o crime e a alta sociedade relacionam-se, revezando-se nos papéis de cordeiro e de ave de rapina: a medida de um é a medida do outro. A epilética fotografia de Toca Seabra ajuda a compor esse tratado sobre a razão cínica que leva dois empresários – Ivan (Marco Ricca) e Giba (Alexandre Borges) – a apertarem a mão de Anísio, num acordo mefistofélico, cujo preço nem a alma de Fausto seria capaz de compensar. O custo do acordo de morte assinado entre os construtores que encomendam o assassinato do seu sócio será pago por ti, por mim, por todos nós. Pelo menos até quando a mão de Anísio estiver a esganar a classe média, que, emudecida, na sua polifonia de prantos, não é capaz de clamar por socorro.
Aquele Brasil de Brant e de Marçal mudou parcialmente com as políticas sociais de Lula e Dilma entre 2003 e 2016, mas preservou demónios na garrafa do coronelismo, da gentrificação não humanizada e da corrupção.



















