Orçado em US$ 63 milhões numa época em que o Rei Midas de Hollywood, Steven Spielberg, curava as feridas económicas decorrentes de “Hook” (1991) e “Always” (1989), o thriller paleontólogo “Jurassic Park” (1993) faturou uma fortuna (US$ 1,1 mil milhões) por provar que os seres que povoaram a Terra, há 200 milhões de anos, poderiam ganhar vida, nas salas, com realismo pleno. Da mesma maneira que “Superman” (1978), de Richard Donner, evidenciou que o Homem poderia voar, o cineasta americano consagrado como um fabulador em “E.T.” (1982) foi capaz de produzir o medo com feras só conhecidas via fósseis de um qualquer museu. O seu blockbuster com rosto de aula de Biologia encantava pelo efeito surpresa. Além dele, Spielberg recheou correrias com um enredo sobre as carências da família (o seu tema mais constante) e deu ao público um herói ligado à Ciência, Alan Grant (Sam Neill). Quatro anos depois, o cineasta arriscou fazer uma continuação (“The Lost World”), um pouco mais cara (US$ 73 milhões), mas assegurou uma receita de US$ 618 milhões. Da sofrível parte III, de 2001, ele não quis nem saber, e só deu o seu aval a ela e a uma leva de sequências, chamadas de “Jurassic World”, iniciadas em 2015. A primeira até tinha viço, mas as demais careciam de alma, apesar de serem rentáveis nas bilheteiras. Como Hollywood não larga os ossos que têm carne, uma nova aventura derivada da criatividade spielberguiana apresenta-se ao serviço este ano: “Jurassic World: Rebirth” (Mundo Jurássico: Renascimento). O elenco é bom, há destrezas narrativas por todo lado, corre adrenalina, mas… aquela sensação de novidade que era o chamariz do original e a marca inerente ao olhar de Spielberg não passam de uma sombra na comparação com o que se vê agora. O pior: essa sombra ofusca as suas qualidades.
Gareth James Edwards, o cineasta britânico que assumiu a realização, foi convocado para filmar um argumento de David Koepp amparado em tudo o que fez por “Star Wars”, há quase uma década. O seu “Rogue One” (2016), magistral, é o melhor filme que já se associou à franquia de George Lucas desde a trilogia de 1977 a 1983. O Darth Vader que se vê ali dá mais medo do que aquele que falou “Luke, I am your Father!”. Depois disso, o artista, um expert em efeitos visuais, tentou ser Kubrick ao propor uma filme sci-fi metafísico (“The Creator”), no qual nada se entende. Ok, o seu trabalho no terreno dos Jedi compensa tudo e fez os executivos da Universal confiarem nele um orçamento de US$ 180 milhões para dirigir um tiranossauro.
Não há o que se reclamar dele em matéria de eficácia. “Jurassic World: Rebirth” eletriza bem, e em muitos momentos, mas continua a tirar o melhor de si de um T-Rex, da mesma forma que Spielberg o fez, há 22 anos. Recicla o que já vimos. Não inova. Nada mudou, nas virtudes desse universo temático sem homens das cavernas. O que se modificou… para (bem) pior… foi a incapacidade da direção de arte (e do design de produção) em dar aos novos dinossauros que aparecem em cena feições realistas, que fujam das comparações com monstros como o Alien de Ridley Scott. Nesse aspecto, um filme muito mais barato (US$ 11 milhões) e mais antigo (2006), o sul-coreano “The Host”, de Bong Joon Ho, tem acabamentos muito melhores na criatura que nos avassala.
Edwards também não foi capaz de extrair o melhor de seu elenco de famosos com as personagens sem tridimensionalidade que tem. Scarlett Johansson encarna a mercenária Zora Bennett com retidão, da mesma maneira que Mahershala Ali dá ao piloto Duncan Kincaid as angústias com as quais a plateia se identifica. Rupert Friend junta-se ao engenho deles no mesmo modo como faz de executivo da indústria farmacêutica, Krebs, um vilão. O carisma dessa trinca vai além do incontestável e os três entregam o que podem, com gosto. No entanto, é Manuel Garcia-Rulfo que engole cada cena em que aparece no papel de Reuben Delgado, um pai de família que sai para velejar com as filhas (Luna Blaise e Audrina Miranda) e o genro (David Iacono) em águas infestadas de bichos escamosos e famintos.
Ele encabeça a porção melodramática que o filme tem, mostrando uma família que, por erro de percurso, cai numa ilha repleta de perigos, para onde Zora e Kincaid zarpam, sob às ordens de Krebs. Os soldados da fortuna precisam dar suporte ao Dr. Loomis (Jonathan Bailey) na busca pelo ADN de animais raros com o fim de extrair dali a matéria de base para medicamentos miraculosos. O problema é que a Natureza é danada e há leviatãs famintos por carne com poder para debelar as suas metralhadoras. Nessa batalha, Reuben, coitado, vira refém do inusitado, mas não se deixar rogar pelo risco.
A humanidade que Garcia-Rulfo injeta na sua atuação é contagiante, mas é pena que a montagem de Jabezz Olssen não contagie tanto, nem a banda-sonora de Alexandre Desplat. De John Williams, o maestro francês não tem nada. A direção de fotografia de John Mathieson, que lembra a caça ao Tubarão de “Jaws” (1975) em muitos enquadramentos, tem charme no uso de cor. O que dá trabalho ao fotógrafo é o desgaste ao qual a saga foi submetida.



















