Apesar da alardeada destreza de Claudio Miranda (na direção de fotografia) e de Stephen Mirrione (na montagem), “F1: The Movie” acelera melhor nas curvas dramatúrgicas do guião, graças ao argumento escrito por Ehren Kruger. Brilha mais nos diálogos – e nos silêncios que os arejam – do que nas retas da exuberância técnica, onde não traz surpresas. Existe eficiência sobretudo no trato com a adrenalina, como já é marca do realizador Joseph Kosinski (vide “Top Gun: Maverick”), mas não há invenção, sobretudo quando se pensa nos numerosos jogos de corridas nas diversas consolas, onde se vê a pista do cockpit. Nada do que se encontra das sequências de corrida do filme vai muito adiante do que se viu na (bela) minissérie “Senna”, da Netflix, pilotada por Julia Rezende e Vicente Amorim, ou na longa-metragem que transformou Kosinski numa promessa: “Tron: Legacy” (2010). O que é “maquinal” conta menos do que o que há de humano. Este é saldo de uma narrativa que mais parece um filme do faroeste, com carros em vez de cavalos ou carroças. Brad Pitt demonstra a boa e velha dimensão do ator “maior que a vida” que só os cowboys da Hollywood clássica eram capazes de sustentar, de Gary Cooper ao Rock Hudson de “Giant” (1952), um western sem balas, com disputa fundiária e petróleo. Esse Oeste, que evoluiu no audiovisual em forma de séries como “Yellowstone” (joia com Kevin Costner), é o que se encontra agora, no circuito, na edição sábia de uma superprodução (fala-se em US$ 300 milhões) que namorisca com o épico.
“Grand Prix” (1966), de John Frankenheimer (1930-2002), classificado como o mais famoso recorte da cena automobilística para as telas, era um filme de ação, um thriller sobre riscos da velocidade. “Days of Thunder” (1990), um memorável trabalho de Tony Scott (1944-2012), corria pela mesma raia. Já “Rush” (2013), obra-prima de Ron Howard, ia por veios mais densos (e ousados), ao calibrar seus pneus no existencialismo, ao falar da rivalidade. O que se vê, em 2025, em “F1” vai nesse viés existencial também, sobretudo quando se ocupa da inquietude de Sonny Hayes, piloto que arranca de Pitt um desempenho de plena maturidade artística. A atuação sob a batuta de Quentin Tarantino em “Once Upon A Time in Hollywood” (2019), que lhe valeu um Oscar, parece ainda afetar o seu modo de (des)construir signos masculinos. “Ad Astra”, também de 2019, merece entrar nesse pacote, em igual medida.
Hayes é um sintoma do que o escritor Brett Martin enquadrou no conceito de “Difficult Men”, um termo traduzido à risca no título em português no livro “Homens Difíceis”. Ao estudar tramas em série como “Breaking Bad”, ele apontou a vigência do “emasculamento” na arte, ou seja, o investimento contínuo em produções que exploram virilidades alquebradas, num mundo em que “ser homem” é um verbo em atomização. O que Pitt faz em “F1: The Movie” é injetar testosterona e inteligência a essa simbologia. Para isso, estrutura a imagem de um lone ranger fora de época e de espaço, que não cavalga pelo Monument Valley, mas vagueia por diferentes arenas nas quais os carros são extensões das potencialidades humanas. Não se trata do chavão da extensão fálica, mas, sim, da expansão do que a audácia do Homem pode alcançar. Ou seja, ele, tal qual o Capitão Kirk de “Star Trek”, almeja ir onde ninguém já esteve… só que num estádio de Fórmula 1… ou de qualquer Fórmula conhecida pelo desporto.
Um acidente do passado fez com que ele se afastasse das competições que consagraram mitos como Ayrton Senna nos anos 1990. Na prática, esse afastamento é motivado por um desapego crónico, uma necessidade de errância. Ele é uma rolling stone, uma pedra viva que roda para não criar musgo.
No momento em que vive, a saltar de competição em competição, de escuderia em escuderia, de empregos corriqueiros em empregos corriqueiros, Hayes recebe do amigo de outrora (e de sempre), Ruben Cervantes (um meticuloso Javier Bardem) o voto de confiança para assumir um dos carros da equipe APXGP, que nao vai lá muito bem. Ninguém confia nele, dado o que se sabe do seu temperamento. Só que Ruben precisa de alguém experiente para fazer duo com o promissor Joshua Pearce (Damson Idris), cuja vaidade é maior que o talento. O problema é que Hayes não está preocupado com vitórias, não tem instinto predatório. Ele é movido a desafios que pódio algum acalenta. A troca com a engenheira Kate McKenna (Kerry Condon, em impecável participação) dá a medida do seu vazio.
O que vemos ao longo de 2h30 é um estudo cuidadoso dessa alma indomável, que lembra as personagens de Paul Newman lá dos anos 1950 e 60. Há uma cota de glória e muita tensão, só que é na lida com os códigos de uma sociedade emasculada que esse “homem difícil” tenta parar de pé, num processo que põe Pitt numa linha evolutiva em relação aos seus colegas da ribalta hollywoodiana. Para Idris, o filme é um convite ao sucesso, em função de um trabalho regado a carisma.
Na direção de arte, o festival de merchandising que se vê em cena deve fazer muita gente rica, mas nada acrescenta em termos dramatúrgicos.



















