O feminicídio e a violência contra as mulheres são um problema global, mas na Guatemala a questão foi exponenciada recentemente, em grande escala, quando, em fevereiro de 2019, 41 mulheres, das 56 que estavam encerradas numa sala num lar para jovens em situação de risco, morreram vítimas de um incêndio. “Não foi o fogo que as matou, mas o estado”, diz uma das protagonistas de “Comparsa”, documentário de Doug Anderson e Vickie Curtis, que venceu o Grande Prémio de Primeiro Filme no Sheffield DocFest.

Seguindo os preparativos por parte de um grupo de adolescentes que organiza um protesto via arte e performance (comparsa) para não apenas relembrar a tragédia, mas falar numa escala global e política dos problemas que as mulheres encontram no dia a dia na Guatemala.

Contextualizado o caso criminal, que nunca foi punido, convém dizer que tudo começou num protesto e tentativa de fuga das vítimas contra um padrão de abusos físicos, psicológicos e sexuais na unidade onde estavam encerradas “para sua proteção”. Ao todo, 100 crianças e adolescentes desse lar coletivo estatal, conhecido como Hogar Seguro Virgen de la Asunción, decidiram fugir em massa. As autoridades impediram a sua fuga e trancaram-nos em diferentes espaços: os meninos num amplo auditório, as meninas numa pequena sala de aula destinada a apenas algumas pessoas. Após horas de encarceramento, alguém acendeu um fósforo, pensando que um incêndio poderia forçar a polícia a soltá-las. Uma dúzia de policias discutiram com a supervisora, parada a 3 metros de distância, se deveriam destrancar a porta com as chaves penduradas. Não o fizeram. Às jovens foi negada a hipótese de sair, acabando por 41 delas morrer e 15 sobreviverem com graves queimaduras. São os testemunhos dessas jovens que as  duas jovens irmãs que vemos em cena, e que lideram a rebelião artística contra a violência do género, nos vão lendo, enquanto outros casos de feminicídio da região chegam até nós através dos noticiários. Histórias e reflexões pessoais das raparigas surgem também em cena, revelando traumas e medos, mas igualmente um espírito inquebrável de busca pela justiça e equilíbrio na sociedade.

Doug Anderson e Vickie Curtis filmam tudo recorrendo a uma mescla de ferramentas documentais – cinema observacional, entrevistas em modo “talking heads”, imagens de arquivo, sons da comunicação social -, cruzando arte com a violência dos testemunhos, não apenas num exercício de terapia ou exorcismo dos demónios da sociedade patriarcal, mas num protesto genuíno e legítimo e que vai muito além  das ruas de Ciudad Peronia. E como ganhou o Grande Prémio de Primeiro Filme no Sheffield DocFest, que por sua vez é apoiado pela Netflix, não nos admira que pelo estilo (onde se realça negativamente a excessiva a banda-sonora trágica, que apenas sublinha exploratoriamente histórias que por si só já são dramáticas) o filme acabe na programação da plataforma de streaming.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/y0r9
Pontuação Geral
Jorge Pereira
comparsa-a-arte-e-a-performance-como-resposta-a-violencia-de-generoDoug Anderson e Vickie Curtis filmam tudo recorrendo a uma mescla de ferramentas documentais, cruzando arte com a violência dos testemunhos, não apenas num exercício de terapia ou exorcismo dos demónios da sociedade patriarcal, mas num protesto genuíno e legítimo e que vai muito além  das ruas de Ciudad Peronia