Fazendo ligação à obra-prima de Sófocles, onde uma mulher – Antígona – insurge-se contra o poder e as leis dos homens, enfrentando Creonte, rei de Tebas, a curta documental homónima estreada no Sheffield DocFest leva-nos até à Macedónia do Norte onde, a personagem título, na atualidade, é uma mulher que, desafiando as regras e condutas estabelecidas na sua pequena comunidade, se transforma numa motorista (taxista) e vem preencher uma debilidade de um território que abrange mais de uma dezena de municípios e 30 mil pessoas, mas que não possui transportes públicos.
Objeto laudatório que parte do pessoal para um movimento coletivo que explana que as mulheres podem fazer qualquer coisa que os homens façam, “Antígona”, assinado por Iber Deari e Mirsad Abazi, segue a forma de registo jornalístico observacional em que a própria mulher, os seus familiares, amigos e clientes, contam a sua história e como ela veio mexer com as dinâmicas de uma região, habituada a catalogar os papéis de cada género.
E a Antígona que vemos pela frente, a conduzir uma carrinha várias vezes ao dia, até às 17h, altura em que parte para o “descanso” da sua horta, onde os vegetais não a entopem de “gossip”, é uma verdadeira força da natureza que não realça a sua forma pioneira, mas sim a sua ambição. “Ao conduzir pelo menos conheço outros sítios”, diz-nos ela, num documentário que traça ainda, em pano de fundo, o retrato de uma região muito afetada pela migração em massa das suas gentes para países como a Alemanha. “Éramos 6 mil normalmente, agora estamos nos 3 mil”, diz-nos um homem da localidade, lamentando a progressiva “morte” de uma região rural que sempre esteve pela de vida. E embora essa morte se vislumbre e paire no ar, Antígona recusa abandonar a sua profissão, mesmo que só tenha 2 ou 3 passageiros diários. Na verdade, esta mulher, que assumiu a profissão que era do pai dela, diz que qualquer profissão lhe servia, não colocando qualquer entrave de género ao que se pode ou não fazer. “Saiam e vão fazer coisas”, diz ela a todas as mulheres assistem à curta, enquanto os homens em cena, do irmão a conhecidos, louvam a sua atitude e as da mulheres da atualidade.
O resultado final é um pequeno filme, ou peça jornalística cuidada e evocativa, sobre uma mulher que não deixa ninguém decidir o seu destino, seja homem, mulher, ou a sociedade no seu todo.



















