Produzido pela ativista brasileira Juma Xipaia e pelo ator norte-americano Leonardo DiCaprio, “Yanuni” é um documentário encomiástico em torno da figura da indígena e da luta do povo Xipaya, enquanto transforma essa batalha individual num processo coletivo que vai muito além das fronteiras da Amazónia, acentuado a figura da floresta tropical como o pulmão do mundo e elemento essencial de batalha contra a emergência climática.
E depois de fechar o Festival de Tribeca em Nova Iorque, o filme aterrou no Sheffield DocFest na sua secção competitiva, fazendo um retrato político e pessoal da primeira mulher a se tornar cacique no Médio Xingu, liderando a aldeia Tukamã. Num jogo de montagem que vai à frente na história e para trás, até se tornar linear, “Yanuni”, que vai buscar o seu título ao nome da filha de Juma ainda por nascer, que por sua vez é também o nome de um pássaro, começa por mostrar a mulher entregue ao ativismo desde bem cedo, transformando-se numa figura de relevo da comunidade e, com a queda do governo Bolsonaro e o regresso de Lula da Silva à presidência do Brasil, secretária de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas no Ministério dos Povos Indígenas, liderado pela ministra Sonia Guajajara.
Multiplicando-se em frentes de batalha, o do biopic, o do ativismo climático e indígena, além de uma vertente romântica que progressivamente traz os holofotes para o nascimento da filha de Juma e do seu companheiro, Hugo Loss (coordenador de Operações de Fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), que por sua vez combate no terreno os garimpos ilegais, “Yanuni” por vezes “patina” no seu foco, mas nunca abandona o seu jeito laudatório sobre a figura e a sua luta, ainda que simplifique todos os conflitos e obstáculos que vão surgindo. Por entre cenas de Juma no combate político em Brasília, de Hugo Loss no combate físico contra o garimpo ilegal, e cenas da vida pessoal do casal, o documentário faz ao seu jeito uma radiografia do ativismo e da emergência de salvar a Amazónia e dos nativos, revelando como a maternidade intensificou o sentido de urgência da luta de Juma, que já não está apenas na luta pela sobrevivência, mas no retorno da dignidade e emancipação de um povo.
Imagens cinemáticas impactantes da Amazónia, entre a poética e reflexiva calmaria da natureza e o desconforto da ação humana, combatida no imediato com a queima da maquinaria pesada que é encontrada nos garimpos ilegais, dão ao filme um sentido jornalístico de investigação, enquanto na vertente pessoal, a vida íntima e relações de Juma acrescentam dimensões de humanismo e sensibilidade que fazem deste filme um registo importante de uma guerra e de uma guerreira que ganhou nova força desde que Bolsonaro saiu do poder.



















