Encerrando a sua trilogia em torno do poder e corrupção de uma certa elite egípcia, Tarik Saleh regressa a Cannes com “Eagles of The Republic”, um novo thriller repleto de elementos noir que segue a tradição de “The Nile Hilton Incident” e “Cairo Conspiracy“, novamente com o ator fetiche do cineasta no centro de todo o enredo: Fares Fares.
Deixando o olhar no mundo das drogas e da má conduta policial (The Nile Hilton Incident), e uma conspiração e fraude no mundo das escolas clericais muçulmanas (Cairo Conspiracy), Saleh observa agora o poder central e a presidência egípcia, sempre ameaçada pela Irmandade Muçulmana. O conhecido realizador – que ganhou relevo depois de assinar os videoclipes mais famosos de Lykke Li (“I Follow Rivers”) – coloca Fares Fares no papel de Fahmy, um ator famoso – com o epiteto de “O Faraó do cinema” – que é encostado à parede pelas autoridades para aceitar o protagonismo num filme de propaganda que o governo vai produzir em torno das façanhas militares do líder reinante antes da sua eleição em 2014.
Todo o suspense é adensado com uma série de potenciadores em torno do famoso ator, seja o filho (Ramy, interpretado por Suhaib Nashwan) que vive com a sua ex-mulher, seja uma relação fora do casamento com a companheira (Cherien Dabis) de um ministro (Tamim Heikal), ou ainda uma colega que também vive sob ameaça. No topo dos problemas de Fahmy está o Dr. Mansour Rula (Amr Waked), um funcionário obscuro que trabalha diretamente para o gabinete do presidente El-Sisi. Citando Beckett, ele até conquista a atenção do ator nos sets de filmagens, mas esta personagem bem obscura, daquelas que se movimentam nas sombras, tem um poder ilimitado, que tanto assusta como cativa o ator.
Saleh conhece bem os códigos do cinema noir e dos thrillers situados nos bastidores do poder. Com esse conhecimento e durante mais de duas horas, ele vai nos levando pela intriga sempre com um olhar crítico perante o sistema, enquanto desconstrói a figura do ator nas mais diversas camadas, balanceando o guião entre as filmagens do projeto governamental e a agitada vida pessoal de Fahmy. Nesse capítulo, a impotência sexual, resolvida com Viagra, ajuda Fahmy a lidar com uma parceira bem mais nova (Donya, interpretada por Lyna Khoudri) e com a amante, mas nada consegue fazer em relação às interações com o filho, agastado com ausência e foco na carreira do pai.
Embora sem o fulgor nervoso de “Cairo Conspiracy”, “Eagles of The Republic” é muito competente naquilo que quer mostrar, encerrando em beleza uma trilogia que servirá no futuro como farol para a História sobre o período pós-revolução no Egipto.




















