Habituado aos thrillers, como se viu em ambiente noir em “The Nile Hilton Incident”, ou numa esfera de mais ação (“The Contractor – Mercenário”), o conhecido realizador Tarik Saleh, que ganhou relevo depois de assinar os videoclipes mais famosos de Lykke Li (“I Follow Rivers”), chegou a Cannes com mais um objeto de suspense liderado pelo seu ator fetiche: Fares Fares.

O modelo deste objeto com alto potencial comercial é o de filme de espionagem e manobras de bastidores, um género em que os norte-americanos se tornaram peritos (“The West Wing”; “House of Cards”; “Nos Idos de Março”), especialmente no que toca ao que está por trás de certas decisões (e reversões de opinião) na Casa Branca e no Congresso.

Mas em vez de fazer um enésimo filme sobre os bastidores políticos norte-americanos ou europeus, Tarik Saleh escolhe o Egito, um país onde o poder instituído logo após a Primavera Árabe de 2011 tenta induzir a pessoa que bem deseja como o novo líder religioso do país, afastando assim pelo caminho eventuais candidatos à posição. Em geral, governo e religião têm uma maior proximidade nos países islâmicos, e dada a influência quotidiana dos líderes religiosos nos levantamentos populares e militares, entende-se a estratégia do governo em tentar manter o povo e as suas forças bem serenas. É nesse meio que entra em cena Fares Fares, que aqui assume o papel de um agente das secretas egípcias que terá de encontrar um contacto (Tawfeek Barhom) dentro da Universidade Islâmica Al-Azhar capaz de lhe passar informações sobre o teor das conversas à volta da eleição do novo líder espiritual, alguém com o poder de influenciar diretamente o resultado final da eleição do novo Grande Imã.

Tudo isto é feito sem grandes corrupios ou sequências de ação, movendo-se “Boy from Heaven” (entretanto renomeado internacionalmente como “Cairo Conspiracy“) pelas sombras da política e teologia com dinamismo, com uma narrativa enriquecida através da construção das personagens que, apesar de não fugirem dos clichés, apresentam vigor e precisão, deixando espaço para ambiguidades. E misturando religião, poder e um crime à mistura, difícil é não lembrar o famoso “O Nome da Rosa“, de Umberto Eco, mas no Egito contemporâneo.

O resultado é um thriller bem conseguido, muitas vezes sufocante, outras apenas derivativo. Mas mesmo sem deslumbrar, o certo é que a cada filme Tarik Saleh eleva a fasquia e qualidade do seu trabalho, expondo sempre os mecanismos de corrupção no seu país. E ao apresentar os bastidores organizacionais de uma instituição da qual sabemos tão pouco (as suas regras e fundamentos), mantém permanentemente um ambiente de surpresa e o espectador agarrado à cadeira até bem perto do final do filme. Merece uma olhadela.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
boy-from-heaven-entre-a-politica-e-a-teologia-a-corrupcao-do-poder"A Conspiração do Cairo" move-se pelas sombras da política e teologia com dinamismo e surpresa