O ato de “olhar” e de percepcionar já tinha um significado inextricável em “Museum Hours”, uma assumida reflexão sobre a Arte (e os museus e o seu significado), e aqui em “Little, Big, and Far”, o novo filme de Jem Cohen, volta a ser essencial, embora o Cosmos seja agora o foco e aquilo que sabemos e interpretamos dele.
Num docudrama onde o cineasta desafia o real e a ficção como mesma dificuldade que temos em observar a olho nú as estrelas a partir das cidades (intoxicadas de luzes artificiais), Jem Cohen acompanha de perto Karl (Franz Schwartz), um astrónomo austríaco de 70 anos desgastado com a sua condição numa ciência entregue a cada vez mais ataques e descrédito (ele sugere mesmo uma greve geral de cientistas), e que, após uma conferência na Grécia, decide não voltar para casa, partindo para uma pequena ilha para encontrar a escuridão suficiente para ver as estrelas. Socorrendo-se de amigos cineastas como Jessica Sarah Rinland e Leslie Thornton, que assumem os papéis da colega de Karl, Sarah, e da sua esposa Eleanor, Cohen leva até ao espetador reflexões pessoais e filosóficas interseccionadas com a sua condição humana num planeta que age como único no Universo, mas que não passa de um ponto numa imensidão de espaço com tanta luz como escuridão.
Munindo-se muitas vezes de ferramentas expositivas – via diálogos entre personagens – para falar de teorias ligadas ao Cosmos e à Física, bem como as histórias paralelas das pessoas que avançaram para essas descobertas e investigações, Cohen consegue produzir uma série reflexões que maioritariamente revelam diversas ansiedades humanas, sempre com um cunho político e social que lança um abraço carinhoso à ciência. Exemplo de uma mensagem abordagem habitual do cineasta, assumidamente anticorporativista, é o paralelismo que faz, através de uma suposta empregada de mesa de um restaurante que Eleanor conheceu, entre o termo matéria negra e o dinheiro sujo que se esconde por entre offshores; o desejo de algumas empresas em começar a colocarem publicidade no espaço para terráqueos verem; e, mais uma vez, sobre os museus, que define que deveriam ser espaços de luto.
Oferecendo – como sempre – um espetáculo visual muitas vezes grandioso, e particular atenção à música, com o Jazz agora e John e Alice Coltrane como rampa para falar do Cosmos, via o álbum “Cosmic Music”, Cohen faz de “Little, Big, and Far” um filme pessoal, ainda que o que é apresentado ao espectador pertença ao campo do conceitual e existencial.



















