Espalhados por diversas secções da Berlinale, vários filmes, de cariz documental e observacional, abordaram o tema da guerra na Ucrânia. Na competição ao Urso de Ouro, “Timestamp”, de Kateryna Gornostai, mapeava, em jeito de mosaico que visita várias localidades, mais perto ou mais longe da frente de combate, o mundo escolar que permanece ativo num país com uma guerra a decorrer, afetando a vida de alunos e professores. Na secção Fórum, “Time To Kill”, de Vitaly Mansky, foca as suas 3 horas de duração na cidade de Lyev, acompanhando uma nova rotina de “normalidade”, onde se multiplicam as covas no cemitério, o número de amputados e mortos, enquanto a “vida” abalroada pela guerra ainda produz momentos de “normalidade”, como atos de união via casamento ou influencers a fazerem pela vida através de filmagens intermináveis. Também na Fórum, Eva Neymann exibiu “When Lightning Flashes Over the Sea”, que se foca na cidade de Odessa e como a guerra se instalou na vida de um conjunto de pessoas da cidade e afetou as suas histórias pessoais já marcadas pela tragédia. Já na secção Forum Expanded, este “Special Operation” centra todos os seus 80 minutos em imagens de videovigilância naa central nuclear de Chernobyl.

Invocando o nome eufemístico que os russos deram à sua presença em solo ucraniano, “Special Operation” pode ser visto mais na linhagem de obras como “Intercepted” do que dos outros filmes aqui mencionados, já que a partir de material que serve agora de arquivo mostra como a 24 de fevereiro de 2022, tanques e veículos armados entraram no complexo nuclear para estabelecer uma base militar destinada a alimentar a tentativa de ocupação da capital da Ucrânia, Kiev. Essa seria a base para uma bem sucedida (na ideia russa) conquista da capital, tornando os funcionários ucranianos do turno que lá estava aquando da invasão como “detidos” à espera de destino. A ocupação de Kiev nunca se concretizou, mas Oleksiy Radynski aproveita-se das várias câmeras localizadas dentro e fora dos edifícios do complexo para, através de uma montagem criteriosa, testemunhar a ocupação, captando no processo uma guerra em andamento. 

Peça de natureza “found footage” real, “Special Operation”, mesmo com os seus escassos 80 minutos, não é um objeto fácil de acompanhar e a sensação do espectador, ao longo de toda a sua duração, é de estar perante um monitor – qual segurança –  a captar crimes em diferido. Por isso mesmo, e apesar de relevância das filmagens como documentos históricos de registo de uma ocupação, o pequeno documentário sente-se sempre como objeto fundamentalmente de denúncia (particularmente no fim, quando nos é explicado que muitos dos soldados que vemos em cena praticaram atos de crueldade imensa fora do complexo) e não uma verdadeira peça cinematográfica. Ainda assim, estamos perante um documento de valor absoluto que somado aos outros filmes sobre o tema da guerra da Ucrânia permitem fortalecer a nossa opinião de que estamos perante uma guerra em larga escala e não apenas uma operação especial como a Rússia apregoa.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
special-operation-crimes-em-diferidoPeça de natureza “found footage” real, “Special Operation”, mesmo com os seus escassos 80 minutos, não é um objeto fácil de acompanhar e a sensação do espectador, ao longo de toda a sua duração, é de estar perante um monitor - qual segurança -  a captar crimes em diferido.