Embora seja um filme bem intencionado na sua busca por criticar uma classe rica branca que vive nas bases do privilégio social, não pelas suas conquistas, mas pela sua história herdada (que envolve inúmeras opressões), há algo que se sente de errado nas diferentes mudanças de tom que a realizadora Elena Manrique coloca na sua fábula moderna sobre o preconceito, estreada em Toronto, na qual a bondade e hospitalidade transformam-se lentamente em cativeiro.
E esse “errado” não é apenas a previsibilidade do arco narrativo, mesmo que Elena coloque em cena uma série de reviravoltas que apenas surpreendem os personagens em cena, mas nunca o espectador. Esse errado talvez esteja (é uma discussão ética e também estética) na opção de, por exemplo, ao impor twists na narrativa, sentir-se uma rendição à exploração narrativa entertainer e escapista, onde a humilhação torna-se entretenimento, mesmo que se diga que no topo nas intenções esteja o espalhar uma mensagem de condenação bem clara. Ou seja, há algo que sente errado, como Luis Ospina e Carlos Mayolo sentiram na década de 1970, quando criaram o termo “porno-miséria” para falar dos inúmeros documentários sociais sobre o subdesenvolvimento e marginalidade na América Latina, mas que sobreviviam, principalmente, como um espetáculo de “boas intenções” para um público estrangeiro.
“Fin de fiesta” (The Party’s Over), que parcialmente segue a mesma linhagem de outro filme espanhol que no ano passado fez um curioso circuito de festivais, “Calladita”, tem como peça central Bilal (Edith Martínez Val), que conhecemos inicialmente em fuga das autoridades espanholas, isto depois de ter atracado com outros migrantes ilegais numa zona costeira espanhola. Será numa mansão que “invade” que este migrante será confrontado pela dona do local, Carmina (Sonia Barba), que vai acolher a visita como se de um novo objeto exótico se tratasse – daqueles que (hoje em dia) não se compram, mas que aparentemente enriquecem vidas vazias, mas luxuriosas no acesso a tudo o de material que o mundo capitalista lhes oferece.
De certa maneira, “Fin de fiesta” sente-se sempre como “Get Out” na criação de uma atmosfera tensa que transmite a permanente sensação que algo grave pode acontecer a Bilal, como aconteceu a Chris (Daniel Kaluuya) no filme de Jordan Peele, especialmente quando os amigos hedonistas da dona da mansão, alienados dos dramas reais da vida, pois vivem numa bolha protetora que transforma as suas vidas num reel incontinente do Instagram, travam contacto com Bilal na arrecadação do jardim, revelando todo um racismo sistémico da sociedade.
E no meio disto tudo, num filme de terror que serve de sátira grotesca, temos ainda uma outra personagem, também ela oprimida com as vestes de “abençoada”, na figura de Luce, a empregada da limpeza de Carmina, que vai nutrir uma ligação de maior empatia com Bilal, pois também ela se vê frequentemente abalroada pelas dinâmicas de poder que a reduzem ao silêncio subserviente da submissão de classe.
No final das contas e no compito geral, em “Fin de fiesta” temos uma crítica social bem explícita, mas todas as personagens parecem pouco polidas, com algum do paternalismo que Carmina impõe a Bilal e Lupe a transparecer também no guião de Elena Manrique, não faltando momentos rebuscados que não só retiram autenticidade ao filme, mas também põe em causa a crítica geral que se propõe fazer, e outros tão simplistas que reduzem o tema da imigração às fronteiras do “Vêm para Espanha roubar trabalho aos espanhóis” Vs “Só trabalhamos naqueles trabalhos de merda que vocês não querem”.





















