O corno do centeio/O chifre de centeio, 2023 , é a segunda longa-metragem da argumentista e realizadora espanhola Jaione Camborda (1983-), nascida na cidade Basca de San Sebastian.
Uma espécie de road movie, filmado parte na Ilha de Arousa-Galicia-Espanha, sendo a história ambientada no início dos anos 70, quase no fim do franquismo e da chegada da democracia, que iniciou a discussão sobre a Lei do aborto na Espanha. Lei aprovada em 1985 no governo de Felipe González, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE). Nos dias que correm, tal temática ainda gera conflitos e perigo para muitas mulheres, pois a sociedade insiste em decidir o que nós podemos ou não fazer com os nossos corpos. Um campo de batalha que não ficou no passado.
A protagonista Maria é uma mulher de aproximadamente 50 anos, vive sozinha, pesca mariscos, e é também a parteira de uma isolada aldeia piscatória, onde vive distante do mundo. Quando é preciso, ela faz abortos induzidos (com o uso de ervas naturais venenosas – fungos do centeio que Maria colhe) a pedidos das mulheres locais que carregam uma gravidez indesejada. Um ato de ousadia e coragem para Maria, uma mulher quase “bruxa” nos tempos em que decorre a narrativa fílmica. Maria é uma profissional zelosa, afetuosa, solidária e dedicada. Questões ligadas à maternidade e ao corpo feminino permeiam o filme do início ao fim.
Ao fazer um aborto mal sucedido a Luísa, a jovem filha da sua amiga Carmem (Julia Gómez), Maria passa a ser procurada pela polícia e tem de deixar a Ilha. Aflita, ela vê-se obrigada a fugir às pressas. Durante o aborto de Luísa, Maria confessa que, quando era adolescente, também fez um aborto a si mesma.
Numa conversa com o C7NEMA, na época da estreia do filme, a realizadora Jaione Camborda ressalta que “Há fronteiras políticas na maneira como a sociedade pensa o corpo da mulher e a gravidez. A fertilidade e o aborto são marcadores dessa territorialidade de exclusão feminina”. O aborto ainda é crime em muitos países, a exemplo do Brasil, enquanto devia ser tratado como uma questão de saúde pública. A meu ver, a Mulher não pode cumprir apenas uma função social e biológica de gerar filhos, a maternidade não deve ser um fardo, mas uma escolha.
No deslocamento da partida forçada de Espanha rumo à Portugal, Maria atravessa a rota de contrabando entre as duas fronteiras, enfrenta dificuldades e coloca-se em risco de vida, mas é ajudada por mulheres espanholas e portuguesas, algumas delas desconhecidas.
O filme explicita a sororidade feminina, o apoio e cuidado entre as mulheres, autonomia e liberdade, algo tão necessário (hoje e sempre). É uma forma de resistência e fortalecimento feminino perante o mundo patriarcal e machista. Um drama que evidencia o poder de escolha e os direitos de nós mulheres sobre os nossos corpos. Em nenhum momento, a realizadora coloca os homens em destaque. São as mulheres as protagonistas da história criada por Camborda.
Em Portugal, Maria encontra trabalho no campo e é acolhida numa casa simples de uma mulher negra, Anabela (interpretada por Siobhan Fernandes). Mulher que se prostitui à noite para sustentar a filha ainda bebé. Maria e Anabela vão se ajudar mutuamente. Numa noite, Anabela está com um homem (cliente sexual) e seus seios jorram leite e ele percebe, algo que a envergonha e constrange. Infelizmente nem todas as mulheres têm as condições financeiras necessárias para sustentar os filhos.
Na convivência das duas mulheres, reacende em Maria o desejo à maternidade quando descobre que está grávida (fruto de uma noite prazerosa de sexo que teve com um forasteiro na sua aldeia), e apesar das dificuldades financeiras para se manter em outro país, decide ter a criança de uma gravidez não planeada.
Quando, em 2023, recebeu a Concha de Ouro no Festival de Cinema de San Sebastian, a realizadora declarou que queria fazer um filme que, apesar de transitar por lugares obscuros, devido às proibições históricas sobre o corpo das mulheres, fosse também algo a celebrar. Um filme que aborda o prazer e a dor feminina, e tudo relacionado com isto, questões ambíguas e profundas.
O modo de interpretar o papel da protagonista do filme e expressar tais questões, valeu a Janet Novás o Prémio Goya de atriz revelação.
A realizadora opta por contar a história de forma cuidadosa e paciente, levando em conta a ambiência e a temporalidade da vida que escorre nas localidades onde o filme foi rodado, e isto é visível nas ações das personagens, e igualmente nos movimentos de câmara e nos planos sem pressa, o que nos dá tempo para imergir nos acontecimentos internos da imagem.Imagem quase táctil que conta com a primorosa fotografia em tons mais escuros (ocre, terra e verde), criada pelo português Rui Poças.
Sobre o título do filme O corno do centeio (nas imagens filmadas vemos campos de centeio), gostava de destacar que está ligado às ervas venenosas – aos fungos do centeio que Maria recolhe e utiliza para fazer a infusão que aborta as gestações indesejadas. Aliás, dizem que o uso, o envenenamento por fungos de centeio, é uma das teorias que, em 1862, nos EUA, levou ao julgamento das mulheres nomeadas como as Bruxas de Salém.
O corno do centeio foi feito em coprodução Espanha-Portugal. Distribuído em terras lusas pela Nitrato Filmes, o filme já passou pelas salas de cinema de Portugal, estando atualmente disponível online na Plataforma FILMIN Possui a duração de 1h43min.




















