Com a banalização das plataformas onde as encontramos e da massiva dose de imagens de guerra, em todos os formatos e feitios, com que somos invadidos diariamente, o poder dessas mesmas imagens, como elementos de implícita convulsão e transformação, e não apenas sinónimos de abstração e/ou alienação incapacitante, perdeu-se. Por isso mesmo, um “storytelling” anexo a elas, sem cair nas raias da repetição e exploração (onde o texto imposto repete apenas o que as imagens mostram) tornou-se fundamental, não para lhes devolver urgência ou relevância, mas como uma espécie de “cola” que as agarra, de forma mais permanente e “real”, à nossa mente entupida de informação irrelevante e abstrata.
No início do ano, na Berlinale, um filme ucraniano distinguiu-se dos outros pela forma como utilizava esses “anexos“, criando novas camadas de vida às imagens que apresentava. Construído a partir de conversas interceptadas a soldados russos em solo ucraniano, enquanto visualmente nos mostrava as feridas bem abertas do conflito, “Intercepted” revelava-se um festival de brutalidade e horror psicológico, em que cada imagem e palavra contava, e tudo ainda está muito vivo na nossa mente. No mesmo sentido, e recorrendo a chamadas telefónicas efetuadas a serviços de urgência, onde são audíveis sinais de descontrole emocional de uma população que começa a ouvir e sentir as explosões nas proximidades, são o anexo, a tal “cola”, para as imagens de destruição no território que as acompanham terem a capacidade de sobreviver na nossa mente.
Dada a natureza desta guerra, sem fim à vista, e que até já entrou também por solo russo, a urgência de um filme como “Songs of Slow Burning Earth” carece de explicações maiores. Qual estado de sítio, o filme de Olha Zhurba arranca com imagens impressionantes e registos sonoros de partir o coração, aproximando-se e afastando-se da primeira linha de combate à medida que se aventura pelo território.
Nessa viagem, num estilo observacional, intercalado com as chamadas telefónicas, vamos lidando com as populações e as suas ações perante o conflito, sendo manifestamente impossível não pensar que a História se repete vezes demais, não interessa a reflexão comum que se faz no pós-guerra. Ao ver a fuga apressada das pessoas a subirem e entupirem as carruagens de um comboio, onde o desespero impera, o espectador, na sua mente, não vislumbra apenas as sequelas do conflito ucraniano, mas é remetido para as imagens ainda coladas na sua mente relativas à 2ª Guerra Mundial. E entre estas duas guerras, a da antiga Jugoslávia também decorreu com doses de requinte maldoso, mostrando que não aprendeemos nada com os ensinamentos do passado, e muito menos aprendemos o que quer que seja.
E do comboio passamos para um carro, ou a pé, repetindo-se a triste sensação que já vimos um pouco daquilo tudo no passado recente. Pior: que olhamos para os jornais e TV com uma abstração tal, que nos esquecemos que neste preciso instante, existem pessoas reais a sofrerem, a perderem a vida, a serem feridas, ou a ficarem com marcas psicológicas que vão permanecer para toda a vida, como a do rapazinho que ouvimos contar a história de como os russos entraram na sua aldeia e balearam o pai num pé. Com outros amigos, e usando como brinquedos os destroços do conflito, esse miúdo brinca à guerra, precavendo-se da chegada de colunas militares imaginárias, mas de caças aéreos bem audíveis que imediatamente o fazem saltar a procurar refúgio. Estas não são personagens de um filme, não são um “outro” numa abstração “lá bem longe”. Somos nós, que por mero acaso e sem qualquer tipo de decisão tomada (por nós próprios), nascemos aqui e não ali.
Com isto, Olha Zhurba entrega mais um filme poderoso sobre o conflito ucraniano-russo, primando na tentativa de desencaminhar o espectador da rota da abstração. Mas essa batalha, diz-nos a História, é profundamente inglória. E manter lucidez num mundo pejado de informação irrelevante é uma tarefa hercúlea e só disponível para uns raros.




















